SAN em Ação: levando ciência até o prato

Ilustração em estilo de colagem com elementos fotográficos e texturas. Em primeiro plano, há um prato amarelo com alimento e, sobre uma colher, duas pessoas aparecem em posição de salto. À esquerda, uma pessoa está dentro de um copo com bebida rosada. Ao fundo, uma fatia de fruta cítrica em tom alaranjado se destaca diante de um céu azul com nuvens. Na parte inferior, formas verdes lembram folhas ou vegetação. A composição combina cores contrastantes e sobreposição de imagens com aparência gráfica e texturizada.
Projeto de extensão da UEM promove ações educativas para conscientizar sobre segurança alimentar e nutricional e o desperdício de alimentos

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Quem nunca caiu na tentação de uma promoção na feira? Três pés de alface por um preço melhor do que um só. Você compra, mas, com a correria da rotina, não consegue consumir tudo antes que as folhas fiquem murchas e vão para o lixo.

Situações como essa fazem parte da nossa rotina e até parecem inofensivas, mas trazem uma questão importante: quantos alimentos nós desperdiçamos anualmente sem perceber?

Desperdício de alimentos e insegurança alimentar

Segundo o Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), no ano de 2022 o mundo deixou de consumir 1,05 bilhão de toneladas de alimentos. Esse número representa 19% de todos os alimentos disponíveis para consumo. 

Esse desperdício, por sua vez, acontece nas etapas finais da cadeia de abastecimento de alimentos: no comércio, nos restaurantes e, ainda, quando já estão nas casas das pessoas. E é justamente nessa última etapa que o número é alarmante: cerca de 60% do desperdício de alimentos acontece dentro das residências.

Uma pessoa descarta restos de alimentos de um prato em uma lixeira, ilustrando o desperdício de alimentos e destacando a importância do consumo consciente e da redução do desperdício.
Desperdício de alimentos em casa (Foto/Reprodução)

Vale destacar que esses números estimam apenas o desperdício, ou seja, nesse cálculo ainda não está somada a perda de alimentos, que ocorre ainda nas etapas iniciais da cadeia: durante a produção, na colheita, armazenamento e processamento e no transporte desses alimentos até o varejo.

Em contrapartida, de acordo com o PNUMA, 783 milhões de pessoas vivem em situação de fome no mundo, e bilhões enfrentam algum grau de insegurança alimentar, ou seja, quando uma pessoa não tem acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas para garantia de uma vida saudável. 

No ranking dos países, nós ocupamos um dos lugares de destaque, mas isso não é motivo de celebração: o Brasil é um dos dez países que mais desperdiçam alimentos no mundo. 

Embora tenhamos voltado a sair do Mapa da Fome e registrado queda nos índices de insegurança alimentar, o desafio ainda é grande: toneladas de alimentos vão para o lixo todos os dias e o acesso ao alimento não representa, necessariamente, uma alimentação de qualidade.

Tendo todo esse cenário como contexto, o projeto de extensão do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), o SAN em Ação, sigla para Segurança Alimentar e Nutricional, entra em ação.

Alimentação saudável e sustentável nas comunidades paranaenses

A preocupação com a temática foi o que levou a professora de Agronomia da UEM, Cássia Inês Lourenzi Franco Rosa, a estruturar o projeto de extensão SAN em Ação.

O projeto, iniciado em dezembro de 2025, tem como objetivo levar informação sobre essa temática para a população. “A ideia é tratar do tema de uma maneira mais lúdica, focando principalmente na redução do desperdício de alimentos e uma alimentação mais saudável”, explica Cássia, coordenadora do estudo.

  • Duas pessoas estão sentadas no chão de uma sala, sobre uma folha de papelão, realizando uma atividade de medição com uma régua e um lápis. Um celular está apoiado no piso ao lado delas. O ambiente possui piso de cerâmica, parede clara e uma cadeira ao fundo.
  • Quatro pessoas estão em uma sala de aula realizando uma atividade manual com cartolinas coloridas, réguas e materiais de papelaria. As mesas estão organizadas com os materiais do projeto, incluindo uma estrutura de papelão em montagem ao centro da imagem.

A equipe é composta, além da professora Cássia, por professores também da Universidade Federal do Paraná (UTFPR), dos campi de Francisco Beltrão e Santa Helena, e acadêmicos de Agronomia e Zootecnia das duas universidades.

Cássia explica que o envolvimento dos estudantes é o que dá vida ao SAN em Ação, uma vez que eles participam de todas as etapas do projeto, desde a concepção das ideias até a confecção dos materiais educativos. “A universidade não existe sem os alunos e os projetos também não. Esse contato com a população, sair da universidade e ir para a comunidade, é fundamental para a formação acadêmica”, enfatiza a professora. 

O conceito de segurança alimentar e nutricional vai muito além do combate à fome. Prevê que todas as pessoas tenham acesso regular e permanente a alimentos em quantidade suficiente, de qualidade, seguros do ponto de vista sanitário e capazes de promover saúde.

Duas integrantes do projeto conduzem uma atividade educativa com um grupo de crianças em um estande. Ao fundo, há um painel com alimentos ilustrados e um banner do projeto, enquanto uma das participantes segura uma placa com a palavra "VERDADE".
Equipe do projeto atuando no evento Arena Sustentável (Foto/SAN em Ação)

Garantir o acesso aos alimentos, porém, é apenas parte do problema. Outro desafio é a chamada ‘fome oculta’, caracterizada pela deficiência de micronutrientes, como vitaminas e minerais. Nesses casos, embora a pessoa se alimente diariamente, sua dieta é pobre em nutrientes essenciais, o que compromete sua saúde mesmo sem haver sensação de fome.

Além dos desafios relacionados ao acesso e à qualidade da alimentação, Cássia destaca que muitas pessoas também desconhecem boas práticas de consumo, como a leitura de rótulos, o aproveitamento adequado dos alimentos e a identificação de informações falsas sobre alimentação.

Da Teoria à Prática: SAN em Ação

A ideia do projeto é, portanto, ser uma ponte entre o conhecimento científico e a comunidade, traduzindo as informações de maneira acessível e divertida, ensinando boas práticas.

Para isso, o projeto apostou na criação de dinâmicas interativas como o jogo ‘Salva ou Descarta?’, que ensina o público a identificar se alimentos com pequenas deformações ainda estão aptos para o consumo, combatendo o desperdício de produtos que ainda têm sua qualidade nutricional intacta, embora sejam diferentes esteticamente. 

  • A imagem mostra um grupo de cinco pessoas em um estande ao ar livre, usando camisetas laranja, provavelmente participando de um evento. Elas estão atrás de uma mesa com o logotipo da UEM (Universidade Estadual de Maringá). Sobre a mesa e ao redor, há materiais coloridos e educativos, como maquetes e objetos didáticos. Ao fundo, é possível ver outras pessoas e estruturas do evento, indicando um ambiente movimentado e interativo, possivelmente uma feira ou ação de divulgação científica.
  • Integrantes do projeto conversam com uma participante em um estande na praia durante uma ação educativa. A equipe veste camisetas do programa Verão Maior Paraná, e ao fundo há tendas, equipamentos e outros participantes do evento.
  • Grupo de cinco integrantes do projeto posam na praia atrás de um letreiro colorido com a inscrição "Verão Maior Paraná". Ao fundo, aparece a faixa de areia, um palco de eventos e estruturas montadas para a programação.

Além disso, os alunos também desenvolveram uma pirâmide alimentar confeccionada com material 100% reciclável e, ainda, realizam atividades como demonstrações sobre a quantidade real de fruta presente em sucos em pó e néctares, incentivando que as pessoas façam a leitura atenta dos rótulos. 

O projeto já realizou ações em eventos como o Verão Maior Paraná, no litoral do estado, e na Expoingá, em Maringá. Mais recentemente, o SAN em Ação iniciou atividades em Unidades Básicas de Saúde (UBS), como a do distrito de Iguatemi, pelo programa Maringá Mais Cidadania.

  • Uma pessoa orienta uma criança durante uma atividade educativa utilizando uma pirâmide alimentar interativa, incentivando o reconhecimento e a classificação dos alimentos de forma lúdica.
  • Três participantes interagem em uma atividade de jogo de cartas educativo, promovendo aprendizado, colaboração e troca de conhecimentos em um ambiente de extensão ou evento educativo.

“A receptividade do público foi muito boa, isso até nos incentivou a dar continuidade ao projeto. No evento [Verão Maior Paraná], você imagina que o pessoal está de férias na praia e não vai querer saber de alimentação saudável, mas as pessoas nos receberam muito bem”, completa Cássia. 

Segundo a professora, apresentar os números é uma estratégia importante para despertar a reflexão sobre os próprios hábitos: “quando as pessoas veem quanto desperdiçam, ficam impressionadas”.

O San em Ação também utiliza o Instagram (@san.agro) para divulgar conteúdos de educação alimentar, segurança alimentar e nutricional e registrar as atividades promovidas pela equipe.

Para o futuro, o foco do projeto está na expansão para as escolas, uma vez que a conscientização sobre hábitos saudáveis deve começar na infância, já que as crianças atuam como multiplicadoras da informação dentro de casa. 

A Universidade como ponte e o combate à desinformação

Quando falamos em alimentação saudável, portanto, o papel da educação alimentar vai muito além do ensino de receitas e dietas. O SAN em Ação atua como uma facilitadora entre a universidade e a comunidade, levando a ciência para mais perto das pessoas,  combatendo a desinformação e promovendo escolhas mais conscientes.

Em tempos da circulação rápida de fake news, o projeto também assume a missão de filtrar e combater as informações falsas sobre alimentação. “O nosso papel também é o de quebrar alguns mitos populares errôneos e levar uma informação mais correta do ponto de vista científico”, destaca a coordenadora.

  • Um homem e uma criança estão sentados diante de uma tela que mostra a frase “Resposta: Mito”. Ambos seguram placas escritas “MITO”, participando de uma atividade interativa, possivelmente educativa. Sobre a mesa há um pequeno display com informações e, ao fundo, a explicação do tema exibida na tela.
  • Um homem mostra um objeto a uma criança em um estande com materiais coloridos, como garrafas com líquidos e uma maquete em formato triangular. A criança observa com atenção, indicando uma atividade prática e educativa, provavelmente relacionada à ciência ou alimentação.

Nesse sentido, docentes e acadêmicos estudam maneiras de traduzir a linguagem científica de forma simplificada, Tudo para munir as pessoas de informação e ensiná-las como se portar de maneira mais consciente no que diz respeito ao consumo e sobre como armazenar e aproveitar melhor os alimentos que tem em casa. 

A professora ainda completa dizendo que essa interação nunca é unilateral: “a gente nunca leva só informação, sempre há troca de informação e aprendemos com a população”.

Quando falamos sobre os números, a discrepância assusta: existem alimentos disponíveis para todos, mas milhões de pessoas ainda passam fome e toneladas de alimentos vão para o lixo. Num cenário como esse, uma das soluções possíveis parece ser começar justamente pela base: a educação alimentar. E é aí que o SAN em Ação atua.

Quer saber ainda mais sobre o projeto? Não deixe de escutar o episódio Conexão Segurança Alimentar e Nutricional no Conexão Ciência Podcast!

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Texto:
Camila Lozeckyi
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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