A visão de um dos olhos pode ficar turva ou desaparecer por algum tempo. As pernas, de repente, parecem não responder como antes, com uma perda repentina de força. Em outros casos, surge uma visão dupla ou uma dificuldade inesperada para coordenar os movimentos. Os sintomas podem assustar, mas algumas dessas manifestações podem ser transitórias e desaparecer. E é justamente aí que está o risco em deixar esses sinais para depois.
Essas alterações estão entre os primeiros sinais de doenças desmielinizantes, condições que atingem o sistema nervoso central e são caracterizadas por danos à mielina, uma estrutura que envolve parte dos neurônios e favorece a transmissão rápida de impulsos nervosos para outras células. A mielina cobre o axônio – a parte longa do neurônio. Entre os pacientes, adolescentes e adultos jovens predominam no número de casos.
A atenção aos primeiros sintomas é essencial, já que o reconhecimento dos sinais e o atendimento precoce podem fazer diferença na preservação das funções neurológicas, caso a doença desmielinizante se confirme. O alerta é feito pelo neurologista Luís Sidônio Teixeira da Silva, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e um dos responsáveis pelo Ambulatório de Doenças Desmielinizantes, ligado ao Hospital Universitário (HU). O Ambulatório acompanha principalmente pacientes com acometimento da mielina atuante no sistema nervoso central.
Entre as condições atendidas estão a esclerose múltipla, que corresponde à maior parte dos casos, o espectro da neuromielite óptica — anteriormente chamada de doença de Devic — e a doença associada ao anticorpo contra a glicoproteína da mielina dos oligodendrócitos, identificada pela sigla MOGAD. A equipe também recebe pacientes com manifestações neurológicas de outras doenças autoimunes, como o lúpus e outros casos mais raros.
O papel da mielina
Entre uma picada no dedo e a percepção da dor pelo cérebro passam apenas milissegundos. Para que essa informação percorra o sistema nervoso com tanta rapidez, a mielina exerce um papel fundamental.
“A mielina é como uma capa do axônio. Ela faz com que o estímulo seja conduzido rapidamente. Quando você pica o dedo com uma agulha, a informação da dor chega ao cérebro em milissegundos”, compara Silva.
Nas doenças desmielinizantes, processos inflamatórios provocam danos nessa estrutura e prejudicam a transmissão dos impulsos nervosos. O efeito varia de acordo com a região atingida: uma lesão nas vias relacionadas à visão, por exemplo, pode produzir manifestações diferentes daquela que compromete áreas ligadas ao movimento, à sensibilidade ou à coordenação.

Identificar essas lesões tornou-se mais preciso com o avanço dos exames de imagem. Segundo o coordenador do Ambulatório, a ressonância magnética teve papel importante por permitir visualizar lesões e revelar com mais clareza as placas de desmielinização, algo que nem sempre a tomografia pode identificar. “Houve avanço no diagnóstico por imagem e agora ao fazer uma ressonância é possível ver as lesões. Às vezes, se faz uma tomografia e ela sai normal e ao fazer a ressonância, ficam visíveis as lesões de esclerose múltipla”, comenta.
Chegar ao diagnóstico é também um marco importante para tentar evitar novos danos. Na esclerose múltipla, os avanços no tratamento permitem hoje controlar com maior eficácia os surtos — episódios em que surgem novos sintomas neurológicos ou há piora dos já existentes.
O tempo, no entanto, continua sendo um fator importante. Além dos surtos, a doença pode apresentar uma fase de progressão dos danos neurológicos, relacionada à perda gradual dos axônios. Por isso, reconhecer os primeiros sinais e iniciar o tratamento adequado o mais cedo possível pode influenciar na evolução da doença.
“A doença tem duas facetas: uma é a ocorrência de surtos, que hoje conseguimos controlar muito bem com medicamentos, mas há também uma forma progressiva, que não acontece em surtos. Nesse tipo, o paciente apresenta uma piora lenta, porém contínua, e seus déficits neurológicos se agravam”, explica o médico.
“Os axônios vão morrendo lenta e progressivamente, e os medicamentos ainda não atuam bem nessa fase. Quanto mais se demora para tratar adequadamente a doença em surtos, maior é a possibilidade de progressão. Perder esse tempo fará falta e poderá deixar um déficit ao paciente”, reforça.
Referência regional
É para investigar, acompanhar e tratar esses casos que o Ambulatório de Doenças Desmielinizantes recebe pacientes encaminhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de diferentes municípios do Norte do Paraná e, eventualmente, da região sul de São Paulo. Cerca de 80 pacientes são atendidos por mês no espaço ambulatorial localizado no Hospital de Clínicas, no campus da UEL.
Durante este ano de 2026, a estimativa está em 400 pacientes já atendidos pelo Ambulatório, sendo a metade deles, casos de esclerose múltipla, como informa a médica neurologista Ana Beatriz Simon, especialista em neuroimunologia e também parte do corpo clínico do Ambulatório de Doenças Desmielinizantes. Outros 30 pacientes apresentam neuromielite e demais casos são os diagnósticos menos comuns.

Os atendimentos ocorrem às segundas-feiras e envolvem professores, residentes de Neurologia, internos e estagiários de Medicina, além da equipe de enfermagem. Os pacientes que necessitam de fisioterapia são encaminhados ao Hospital Universitário. O ambulatório dispõe ainda de acesso aos exames necessários para investigação e acompanhamento das doenças, entre eles a ressonância magnética.
Ter o serviço especializado disponível, porém, não significa que o caminho até ele seja sempre rápido. Como os primeiros sintomas podem ser associados inicialmente a diferentes condições, alguns pacientes passam por diferentes atendimentos antes que seja levantada a suspeita de uma doença desmielinizante. Para o médico responsável, é justamente nesse percurso que está um dos desafios para que esses pacientes recebam o tratamento recomendado. “A grande questão é o paciente chegar até nós”, resume.
Para encurtar esse percurso, o neurologista considera importante ampliar o conhecimento sobre os sinais dessas doenças nos primeiros níveis de atendimento e fortalecer a articulação com os serviços especializados. Quanto antes a suspeita for levantada e o paciente encaminhado para investigação, maiores são as possibilidades de iniciar o acompanhamento em uma fase precoce. Para Silva, ampliar a informação tanto entre a população quanto entre os profissionais que fazem o primeiro atendimento pode ajudar a reduzir esse intervalo.
Tratamentos avançaram, mas acesso ainda é limitado
Nas últimas décadas, o tratamento da esclerose múltipla avançou significativamente. Se a doença ainda não tem cura, hoje, existem medicamentos capazes de reduzir a ocorrência de surtos e controlar melhor as manifestações, ampliando as possibilidades de preservar as funções neurológicas dos pacientes.
“Atualmente, temos medicamentos que praticamente aboliram os surtos. O grande desafio é que os pacientes ainda não têm acesso aos melhores remédios, são muito caros”, afirma Silva.
Segundo o neurologista, algumas das terapias mais recentes apresentam alta eficácia, mas o custo elevado desses medicamentos ainda representa uma barreira para ampliar o acesso às opções mais modernas. O desafio, aponta o médico, está em fazer com que esses medicamentos mais avançados cheguem aos pacientes no momento em que podem produzir maior benefício.

Informação correta também é parte do cuidado
O acesso cada vez maior a informações sobre saúde também exige atenção ao que tem ou não respaldo científico. No caso da esclerose múltipla, Silva cita como exemplo a ideia de que a vitamina D poderia, sozinha, substituir os medicamentos utilizados no controle da doença.
“Há rumores de que a vitamina D funcionaria sozinha na esclerose múltipla, mas isso não é verdade. Houve pacientes que usavam somente vitamina D e tiveram novos surtos, solicitamos que continuassem conosco, sem abandonar o ambulatório e com isso puderam prosseguir com o tratamento convencional”, relata.
Isso não significa que a vitamina não tenha importância para esses pacientes. Segundo o neurologista, o ambulatório procura manter os pacientes com níveis da vitamina dentro da normalidade ou um pouco acima, por seu papel na imunidade e em sua regulação. O que não se deve fazer, reafirma, é confundir essa relação com uma forma de tratar a doença. “Quem tem vitamina D baixa apresenta maior chance de doença, mas vitamina D não é tratamento.”
Para o médico coordenador, ampliar o conhecimento sobre os primeiros sinais é uma das principais formas de acelerar a chegada à investigação especializada. Mesmo manifestações que desaparecem depois de algum tempo não devem ser simplesmente deixadas para trás.
“O grande foco seria divulgar os sintomas para favorecer o diagnóstico e o tratamento precoces, porque isso ajuda a preservar funções”, reforça o neurologista. No caso da esclerose múltipla, ele lembra que o principal risco não está na mortalidade, mas nas limitações que a doença pode provocar ao longo do tempo. “É uma doença que não mata, mas pode incapacitar bastante.”
Produção Científica
O Ambulatório também tem se dedicado a mapear os casos para conhecer melhor o perfil dos pacientes e retomar a produção sistemática de trabalhos científicos, como ocorria em anos anteriores. Os estudos atualmente apresentados em congressos da área têm caráter observacional e incluem análises de coorte1, voltadas à identificação de fatores associados à evolução da doença e às diferentes respostas ao tratamento. “Essa prática também reflete no tratamento que oferecemos, na forma como nos preparamos para tratar desses pacientes”, define a médica Ana Beatriz. A perspectiva é ampliar e diversificar a produção científica nos próximos anos, com a consolidação dos dados e o acompanhamento contínuo dos pacientes.
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Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Estudo de coorte – Uma coorte é formada por um grupo de pacientes acompanhado ao longo do tempo, permitindo aos pesquisadores observar a evolução das doenças, a resposta aos tratamentos e os fatores relacionados a prognósticos diferentes. No caso do Ambulatório, poderia ser o grupo de pacientes atendidos com esclerose múltipla e as características que esse grupo apresenta. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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