Uma infecção comum, tratada com antibióticos por décadas, pode voltar a ser uma ameaça fatal. Esse é o cenário projetado por especialistas diante do avanço das chamadas superbactérias, microrganismos capazes de resistir aos principais medicamentos disponíveis atualmente. O fenômeno tem sido cada vez mais associado ao termo “pandemia silenciosa”, usado para descrever a disseminação global dessas bactérias, muitas vezes fora do radar da população.
O alerta ganha destaque em 15 de maio, Dia Nacional do Controle das Infecções Hospitalares, data que chama atenção para um problema que cresce dentro e fora dos hospitais, muitas vezes de forma invisível.
As superbactérias são um problema que vai muito além desses espaços, e o C², ao longo desta matéria, vai te explicar o porquê.
De acordo com a professora do Departamento de Ciências Básicas da Saúde do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maria Cristina Bronharo Tognim, esses microrganismos são definidos pela alta resistência aos antibióticos, que por décadas foram a principal arma contra infecções bacterianas. “De modo geral, nós chamamos as bactérias de resistentes e multirresistentes. As superbactérias estão nessas duas últimas categorias”, explica a docente.

Se os medicamentos deixam de funcionar, como tratar infecções que antes eram consideradas simples?
Diferentemente das bactérias comuns, as superbactérias possuem alterações genéticas que lhes permitem escapar da ação dos antibióticos. Elas podem, por exemplo, inativar o medicamento, bloquear seu efeito ou até expulsá-lo da célula, o que reduz drasticamente as chances de sucesso no tratamento.
Esse fenômeno está relacionado à resistência antimicrobiana, conhecida pela sigla RAM, que ocorre quando microrganismos como bactérias, vírus, fungos e parasitas passam a sobreviver aos tratamentos utilizados para combatê-los. Embora possa surgir naturalmente, a resistência é acelerada por ações humanas, como o uso incorreto de antibióticos, falhas de higiene e saneamento e o descarte inadequado de resíduos.
“Quando a gente usa o antimicrobiano para tratar infecções causadas por superbactérias, a chance de sucesso terapêutico é mínima”, afirma Maria Cristina. Em casos mais graves, a infecção pode evoluir para sepse e levar à morte.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência antimicrobiana está entre as maiores ameaças à saúde pública global. Um estudo publicado na revista The Lancet estima que mais de 1,27 milhão de mortes por ano estejam diretamente relacionadas a infecções resistentes, enquanto quase 5 milhões têm associação com esse fenômeno. Projeções indicam que esse número pode chegar, até 2050, a 10 milhões de mortes anuais.
Para visualizar melhor esses dados e entender a dimensão do problema, o C² preparou um infográfico que reúne os principais números sobre o avanço das superbactérias no mundo.

Diante desses números, surge uma pergunta inevitável: onde, exatamente, esse problema começa?
Principais causas
Embora possam estar presentes em diferentes ambientes, as superbactérias encontram um terreno especialmente favorável nos hospitais, sobretudo nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Nesses espaços, o uso de antibióticos é frequente e, muitas vezes, indispensável.
Mas, na prática, o que acontece quando esse recurso deixa de funcionar como deveria?
O uso constante desses medicamentos elimina as bactérias mais sensíveis e permite que sobrevivam justamente aquelas mais resistentes. Com o tempo, esse processo altera o equilíbrio do ambiente hospitalar e favorece a presença de microrganismos cada vez mais difíceis de combater.
A transmissão também ocorre de forma simples, pelas mãos de profissionais de saúde, por objetos ou superfícies. Um gesto cotidiano pode ser suficiente para espalhar bactérias invisíveis. “O controle mais barato e mais efetivo é a higienização das mãos. É uma atitude simples que pode salvar vidas”, reforça Maria Cristina.
Efeito pós Covid-19
Se o problema já existia, a pandemia da Covid-19 funcionou como um acelerador. Em meio à incerteza e à pressão sobre os sistemas de saúde, o uso de antibióticos aumentou, muitas vezes de forma preventiva ou inadequada.
Ao mesmo tempo em que esses medicamentos eram utilizados em larga escala, o controle de infecções se tornava mais difícil. O resultado foi um ambiente propício para a seleção de bactérias resistentes.
Relatórios internacionais indicam que a resistência bacteriana cresceu de forma significativa nos últimos anos. Ou seja, o problema não apenas persiste, como avança em ritmo acelerado.
De um ambiente a outro, sem fronteiras
E se o problema não começasse necessariamente no hospital? E se ele estivesse se desenvolvendo também em outros espaços, longe dos olhos da maioria das pessoas?
Segundo explica o professor associado de microbiologia veterinária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ulisses de Pádua Pereira, a resistência bacteriana também está relacionada ao uso inadequado de antibióticos na produção animal. “Muitos produtores usam antibióticos de forma errada. Às vezes, o problema não é bacteriano, mas o antibiótico é utilizado mesmo assim”, afirma.

Na UEL, o pesquisador desenvolve estudos que investigam justamente esse cenário. Seu trabalho envolve a análise de bactérias presentes em ambientes aquáticos, como sistemas de piscicultura, onde o uso de antibióticos pode favorecer o surgimento de microrganismos resistentes. A partir dessas análises, ele busca entender como esses organismos se desenvolvem e, principalmente, como podem circular entre diferentes ambientes, conectando ecossistemas que, à primeira vista, parecem distantes.
Mas por que isso importa para quem está fora desse contexto?
A resposta está na forma como as bactérias compartilham informações. “O mecanismo de resistência não precisa estar numa bactéria patogênica. Ele pode estar numa bactéria comum e ser transmitido para outra que causa doença”, explica.
Ou seja, a resistência pode surgir em um ambiente específico e, a partir daí, se espalhar. Em rios e represas, por exemplo, essas bactérias podem percorrer longas distâncias. O que começa em um ponto isolado pode alcançar outras regiões, outras espécies e, eventualmente, chegar aos seres humanos.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas microbiológica e passa a ser também social. Ao analisar esses processos, Ulisses evidencia que a resistência bacteriana não é um problema individual, mas coletivo. Mesmo quando o foco da pesquisa está em animais ou no ambiente, as consequências ultrapassam esses limites e impactam diretamente a saúde humana.
Nesse contexto, o professor destaca com frequência a importância da abordagem de Saúde Única, conceito que orienta parte de suas pesquisas na UEL. A ideia parte do princípio de que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Ignorar essa relação significa, na prática, dificultar o controle das infecções e ampliar os riscos para toda a população.
Em busca de respostas
Diante desse cenário, a ciência busca compreender como interromper o ciclo de surgimento e disseminação das superbactérias. Pesquisadores investigam como esses microrganismos se adaptam, evoluem e circulam entre diferentes ambientes. Um exemplo é o desenvolvimento de um hidrogel à base de vidro bioativo, que tem se mostrado eficiente contra superbactérias, tema já abordado pelo C². Clique aqui para conferir!
Uma das ferramentas utilizadas é o sequenciamento genômico, que permite identificar os genes responsáveis pela resistência e acompanhar sua circulação entre diferentes bactérias e ecossistemas. Ao mapear esses caminhos, os pesquisadores conseguem indicar estratégias mais eficazes para conter a disseminação e orientar o uso mais responsável de antibióticos. “Quanto mais a gente conhece o problema, mais certeira é a solução”, explica Ulisses.
O que eu posso fazer hoje?
Ainda que por muito tempo tenha sido tratada como uma ameaça futura, a resistência bacteriana já faz parte do presente. “Essa pandemia não é silenciosa. Ela já está acontecendo”, alerta Maria Cristina. Especialistas apontam que o enfrentamento do problema depende de ações coletivas e coordenadas, e você faz parte disso!
Medidas simples, como a higienização das mãos, continuam sendo fundamentais. Ao mesmo tempo, o uso responsável de antibióticos e o investimento em pesquisa são essenciais para evitar que o cenário se agrave.A discussão sobre o tema não termina aqui. Ela continua no podcast “Conexão Superbactérias”, produzido pelo C². Na série, reunimos trechos da entrevista com a professora Maria Cristina. É só dar o play!
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Texto: Sabrina Heck
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Beatriz Sayuri
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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