Pedras lascadas, cerâmicas fragmentadas, vasijas, jarros, instrumentos de caça e utensílios de cozinha de origem indígena são alguns dos objetos que fazem parte de um vasto acervo, tão denso que abriga histórias que poucos lugares, além deste, contam. Estamos falando do Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da Universidade Estadual de Maringá (LAEE/UEM), que conta com milhares de peças — algumas, acredite, datando de nove mil anos!
O professor e arqueólogo Lúcio Tadeu Mota, referência no assunto dos povos indígenas paranaenses, é quem devota cuidado a este acervo desde a década de 1980, quando percebeu que a narrativa oficial da história do Paraná ignorava a presença indígena. Ele conta: “Por que a história dos indígenas não era contada? Ensinavam a história do Estado sem a presença dos indígenas, mas eu sabia da existência deles, eles estavam ali na cidade.”
Ali, temos estantes cheias de caixas com milhares de artefatos que se acumulam em salas climatizadas, com armários enormes nos fundos do laboratório. Cada caixa pode conter centenas de peças, fruto de escavações cuidadosas em sítios que obedecem a protocolos arqueológicos rigorosos: coleta de material, registro de local, catalogação e armazenamento.
O professor Lúcio Mota e parte do acervo do LAEE (Foto/Reprodução) O professor Lúcio Mota e parte do acervo do LAEE (Foto/Reprodução) O professor Lúcio Mota e parte do acervo do LAEE (Foto/Reprodução) O professor Lúcio Mota e parte do acervo do LAEE (Foto/Reprodução) O professor Lúcio Mota e parte do acervo do LAEE (Foto/Reprodução)
Era um dia normal quando a articuladora do NAPI Paraná Faz Ciência, Débora de Mello Gonçales Sant’Ana, acompanhou o assessor da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), Renê Wagner Ramos, em uma visita ao LAEE. Foi então que Renê teve uma ideia inquieta: o quão incrível seria se esse patrimônio, com tantas peças e narrativas que ainda não ganharam luz, se tornasse visível, digitalizado e acessível para um número incontável de pessoas?
Além da visita ao LAEE, o projeto nasceu de uma percepção antiga: a necessidade de dar visibilidade ao trabalho de museus e centros de documentação espalhados pelo estado. “Nós temos 14 museus universitários e 10 centros de documentação que contam a história das nossas instituições e da ciência no Paraná. Como é que nós íamos ficar fora desse processo todo de inovação”, questiona Renê.
Ver de perto peças riquíssimas e perceber um material que não pode ser desperdiçado pelo esquecimento futuro foi o gatilho para o NAPI Conectando Memória e Inovação. Hoje articulador do Arranjo, Renê viu que preservar não bastava: era preciso inovar para dar vida, pesquisa e uso social a esses acervos. O desafio de preservar a memória científica e cultural do Paraná encontrou então uma nova aliada: a inovação tecnológica.
Da ideia à prática
Numa primeira constatação, estava claro que a maior parte dos museus universitários e centros de documentação trabalhavam com computadores defasados e pouca infraestrutura para digitalizar seus acervos. “Se a gente quisesse converter nossos colegas para que eles possam produzir, precisamos dar as ferramentas. O problema era a defasagem tecnológica e de pessoal”, explica Renê.

A proposta inicial surgiu em diálogo com outros programas já existentes, como o NAPI Paraná Faz Ciência. A ideia era estruturar uma espécie de “linha de produção” que unisse tecnologia e preservação de acervos. Para isso, foram adquiridos computadores de alta performance e equipamentos de digitalização, como scanners planetários e scanners 3D, adaptados às necessidades de cada espaço.
A ideia era clara: criar uma linha de produção que permitisse a museus e centros de documentação digitalizar, organizar e disponibilizar seus acervos.“Se é um museu, ele normalmente tem muito acervo em três dimensões. Já os centros de documentação lidam mais com papéis. Então pensamos em soluções diferentes para cada caso”, explica Renê.
Além dos equipamentos, o projeto investiu na formação de equipes para percorrer o estado, levando a prática da digitalização em 3D a diferentes instituições. O objetivo é transformar o portal do NAPI em um repositório científico integrado, no qual pesquisadores poderão acessar digitalmente peças e documentos de espaços distintos.
Inteligência artificial como aliada
Um dos diferenciais do projeto é o uso da inteligência artificial (IA) para acelerar a catalogação de acervos. Hoje, o processo manual para registrar uma peça pode levar entre 15 e 20 minutos. Com a tecnologia, esse tempo pode ser reduzido drasticamente. “No tempo em que um profissional faria 30 peças manualmente, com a IA será possível catalogar até 300. A inteligência artificial não é mágica, mas, se bem utilizada, facilita muito e agiliza os processos”, destaca Renê.

Os dados coletados são organizados na plataforma Omeka. Posteriormente, as informações devem ser disponibilizadas no site do Paraná Faz Ciência.
Reconhecimento nacional
O NAPI Conectando Memória e Inovação recebeu R$ 5 milhões em investimentos iniciais, com um aditivo de mais R$ 1,2 milhão para ampliar a infraestrutura, incluindo o Arquivo Público do Paraná. Uma parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) garantiu a criação de um data center de 200 terabytes para armazenamento dos acervos digitalizados.
A iniciativa já se destacou em eventos nacionais. Durante o 8º Fórum Permanente de Museus Universitários, realizado em Fortaleza, a equipe do NAPI recebeu o prêmio de melhor trabalho na categoria ‘Comunicação Oral em Pesquisa’. Renê conta que o time do Paraná surpreendeu ao apresentar a infraestrutura montada em parceria com a UEPG.
“Para termos uma dimensão comparativa, o Ibram [Instituto Brasileiro de Museus], que recebe dados de museus de todo o país, tem apenas 4 terabytes. E nós temos 200 só para o Paraná. Isso mostra a dimensão do investimento feito aqui”, afirma.
O projeto ‘Conectando Memória e Inovação: Inteligência Artificial, Humanidades Digitais e a Democratização de Acervos no Contexto Museológico Paranaense’, concorreu com 18 trabalhos de todo o país. Desenvolvido por Niltonci Chaves, Renê Wagner Ramos, Robson Laverdi, Edson Armando Silva e Julia Graciela Machado, foi reconhecido pela excelência, originalidade e contribuições significativas para o avanço das práticas museológicas.

Renê enfatiza que o sucesso do projeto só foi possível graças ao esforço conjunto de diferentes áreas e profissionais. “Hoje temos historiadores, museólogos, arquivistas, engenheiros, biólogos, geólogos e o pessoal da informática integrando o NAPI. É um mesclado de formações que deu muito certo. Todo mundo entende que só vamos ter sucesso se estivermos em rede”, avalia.
O articulador também lembra que o investimento em tecnologia provoca novas demandas, como a necessidade de mais profissionais e estrutura física adequada. Ainda assim, ele vê isso como um avanço natural.
“O prêmio que recebemos não é individual. Ele é coletivo, de todos os colegas dos NAPIs, da Fundação Araucária, da Seti. Cada elo da corrente foi essencial. Criamos ferramentas que permitem preservar nosso patrimônio cultural e científico e, ao mesmo tempo, abrir novas possibilidades de pesquisa”, resume Renê.
O NAPI Conectando Memória e Inovação busca criar condições para que a digitalização e a preservação sejam parte do cotidiano dos museus e centros de documentação, e não ações pontuais. Para isso, aposta em capacitação, bolsas e, no futuro, políticas públicas permanentes.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Any Veronezi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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