Você já sentiu que, às vezes, mesmo com silêncio ao redor, um chiado ou ruído persiste no ouvido? Em certos casos, quando a pessoa move a mandíbula ou aperta os dentes, esse som pode mudar de intensidade. Esse zumbido pode vir de uma disfunção temporomandibular (DTM), uma condição que afeta a articulação da mandíbula e os músculos recrutados em seus movimentos. Esse tema é pesquisado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pelo Serviço de Atendimento Multidisciplinar em DTM e Dor Orofacial (SAMDOF), ligado ao curso de Odontologia, e atualmente busca compreender mais sobre essa relação com um novo estudo aberto a voluntários.
Zumbido pode vir da mandíbula
Embora seja percebido nos ouvidos, o zumbido nem sempre tem origem apenas no sistema auditivo. Esse é um sintoma que pode estar associado a diferentes condições e, em alguns pacientes, sofre influência de estímulos provenientes dos músculos e das articulações da cabeça e do pescoço. Essa manifestação é conhecida como zumbido somatossensorial.
Quem explica é a professora e pesquisadora da UFPR, Priscila Brenner Hilgenberg Sydney. “Isso não significa que todo zumbido seja provocado por DTM, mas que as duas condições podem estar associadas em determinados casos”. Essa possível relação é uma das frentes investigadas pelo SAMDOF, que reúne atendimento à comunidade, formação de estudantes e produção científica.

Dor orofacial, DTM e bruxismo
Dor orofacial é o termo utilizado para reunir diferentes condições dolorosas que atingem a face, a boca e estruturas associadas. A DTM integra esse campo, mas não representa todas as formas de dor orofacial. Segundo Priscila, quando esses quadros não são corretamente identificados e tratados, os sintomas podem persistir ou se agravar, afetando diferentes atividades da rotina.
Na disfunção temporomandibular, podem aparecer dor na face, dificuldade ou limitação para abrir a boca, estalos e desconforto ao mastigar. As alterações podem atingir a articulação localizada entre a mandíbula e o crânio, os músculos da mastigação ou ambos. A condição é multifatorial e estudada a partir de fatores biológicos, psicológicos e sociais interagindo para indicar dor. Isso significa considerar tanto as alterações musculares e articulares quanto aspectos emocionais, comportamentais e ligados à rotina do paciente. Por isso, a avaliação considera o conjunto de sinais, hábitos e impactos na vida cotidiana.
O bruxismo, por sua vez, é caracterizado por atividades dos músculos da mastigação, como apertar ou ranger os dentes, e pode ocorrer durante o sono ou no período de vigília, quando estamos acordados. Embora DTM e bruxismo possam coexistir, os dois quadros não são equivalentes.
A compreensão dessas diferenças também evita uma associação automática entre DTM, bruxismo e zumbido. Essas condições podem coexistir, mas sem uma relação de uma ser a causa direta da outra.
Onde cuidado e conhecimento se encontram
Criado em 2019, o SAMDOF surgiu em resposta à alta demanda por atendimento especializado em dor orofacial e DTM. Segundo Priscila, a procura pelo serviço também levou à organização de triagens e de uma lista de espera para os pacientes. Atualmente, o projeto acompanha pessoas com dor orofacial, DTM, bruxismo e distúrbios relacionados ao sono a partir de uma abordagem multidisciplinar, agregando profissionais de diferentes especialidades da Odontologia e da Fisioterapia.
Entre a escuta dos pacientes e o registro das informações: , profissionais e estudantes de Odontologia da UFPR realizam atendimentos e avaliações clínicas que contribuem para o desenvolvimento da pesquisa sobre zumbido e dor orofacial (Foto/SAMDOF-UFPR) Entre a escuta dos pacientes e o registro das informações: , profissionais e estudantes de Odontologia da UFPR realizam atendimentos e avaliações clínicas que contribuem para o desenvolvimento da pesquisa sobre zumbido e dor orofacial (Foto/SAMDOF-UFPR) Entre a escuta dos pacientes e o registro das informações: , profissionais e estudantes de Odontologia da UFPR realizam atendimentos e avaliações clínicas que contribuem para o desenvolvimento da pesquisa sobre zumbido e dor orofacial (Foto/SAMDOF-UFPR)
Durante o atendimento, os pacientes passam por entrevista clínica (anamnese), e por exames clínicos e físicos. Dependendo do caso, podem ser solicitados exames de imagem e indicadas diferentes formas de cuidado, como orientações, exercícios, fisioterapia, placas oclusais1 ou medicamentos.
Para os estudantes, o contato com os pacientes ajuda a compreender que a dor não se resume a uma alteração isolada, mas pode envolver uma interação entre diferentes fatores. Para a comunidade atendida, o serviço amplia o acesso à avaliação especializada de condições que podem afetar a alimentação, o sono, a comunicação e a qualidade de vida.
Os casos acompanhados também ajudam a formular novas perguntas científicas. Segundo Priscila, dúvidas surgidas durante os atendimentos podem se transformar em pesquisas de mestrado e doutorado. Entre os trabalhos desenvolvidos pelo grupo estão estudos sobre o uso da lavanda e o zumbido somatossensorial. É nesse encontro entre atendimento e pesquisa que se insere o estudo atualmente aberto à participação da comunidade.
Pesquisa aberta à comunidade
Para investigar melhor a relação entre DTM dolorosa e zumbido somatossensorial, o SAMDOF está selecionando voluntários para uma nova pesquisa. Os interessados vão passar inicialmente por uma triagem, para verificar se os sintomas e as condições apresentadas correspondem aos critérios previstos no estudo. Segundo a docente, essa avaliação é importante porque o zumbido pode ter diferentes origens e nem todos os casos estão relacionados às estruturas da mandíbula.
A pesquisa procura pessoas de ambos os sexos, com idade entre 18 e 60 anos, com ou sem queixa de dor na face, nas têmporas — região entre a testa e as orelhas — ou na mandíbula, dor relacionada à função mandibular há mais de três meses e queixa de zumbido também há pelo menos três meses. Não podem participar gestantes, lactantes e pessoas com determinadas condições auditivas, odontológicas, neurológicas, psiquiátricas ou inflamatórias. Também estão excluídos casos com contraindicações à aplicação ou uso de medicamentos que possam interferir no procedimento.
Os participantes selecionados passarão por quatro encontros ao longo de um período de seis meses. Durante o estudo, serão identificados pontos musculares em que o movimento ou a estimulação provocam alterações na intensidade ou nas características do zumbido. Nesses pontos, será realizada uma aplicação com anestésico local, seguida da avaliação de possíveis mudanças na percepção do sintoma.
Registros dos procedimentos no Serviço de Atendimento Multidisciplinar em DTM e Dor Orofacial (SAMDOF), da UFPR (Foto/SAMDOF-UFPR) Registros dos procedimentos no Serviço de Atendimento Multidisciplinar em DTM e Dor Orofacial (SAMDOF), da UFPR (Foto/SAMDOF-UFPR) Registros dos procedimentos no Serviço de Atendimento Multidisciplinar em DTM e Dor Orofacial (SAMDOF), da UFPR (Foto/SAMDOF-UFPR)
Essas intervenções podem provocar algum desconforto e a aplicação pode causar dor ou sensibilidade no local, pequeno sangramento, hematoma ou ainda uma alteração temporária da sensibilidade, como alerta a professora Priscila. Os procedimentos, em todo o caso, serão realizados por profissionais capacitados e haverá acompanhamento dos participantes durante as etapas da pesquisa. A intenção é contribuir para a redução do zumbido, ainda que uma melhora não possa ser totalmente garantida, já que verificar os efeitos dessa aplicação é, justamente, uma das questões investigadas pela pesquisa.
Todas as etapas relacionadas ao estudo — triagem, avaliações, exames e tratamento — são gratuitas e realizadas na Clínica I do curso de Odontologia da UFPR, no Campus Jardim Botânico, em Curitiba. Ao finalizar a participação, os pacientes podem dar continuidade ao tratamento na disciplina de DTM da graduação em Odontologia da UFPR, se a avaliação clínica assim indicar e se houver disponibilidade do serviço.
A pesquisa continua recebendo interessados e, até o momento, não há uma data prevista para o encerramento das inscrições. É necessário preencher o formulário disponível em PESQUISA DTM E ZUMBIDO ou entrar em contato com a equipe de pesquisadores pelo WhatsApp +55 41 9552-7638. Depois do primeiro contato, os candidatos receberão as orientações para a avaliação inicial.
Conhecimento que circula nas redes
Além do atendimento e das pesquisas, o SAMDOF utiliza as redes sociais para explicar conceitos relacionados à dor orofacial, à DTM, ao bruxismo e ao sono. Na página @samdof.ufpr, os conteúdos traduzem evidências científicas para uma linguagem acessível, apresentam orientações de autocuidado e ajudam a enfrentar informações equivocadas e explicações simplistas sobre condições complexas. Segundo a professora Priscila, esse conhecimento também é compartilhado em eventos e por meio da publicação de artigos e relatos sobre as atividades extensionistas.
Para a professora da UFPR, o acesso à informação confiável favorece a adesão ao tratamento. “É importante que se compreenda a magnitude do seu problema para seguir as orientações sobre o que fazer em casa, com exercícios, termoterapia, medicações e dispositivos interoclusais”, afirma. Sem essa conscientização, explica, pode não haver uma melhora expressiva dos sintomas relatados pelo paciente.
As etapas da avaliação de pacientes na UFPR: exame da região da mandíbula, aplicação de anestésico local e registro de informações clínicas. Os procedimentos integram a investigação sobre a relação entre dores musculares da mastigação e zumbido (Foto/SAMDOF-UFPR) As etapas da avaliação de pacientes na UFPR: exame da região da mandíbula, aplicação de anestésico local e registro de informações clínicas. Os procedimentos integram a investigação sobre a relação entre dores musculares da mastigação e zumbido (Foto/SAMDOF-UFPR) As etapas da avaliação de pacientes na UFPR: exame da região da mandíbula, aplicação de anestésico local e registro de informações clínicas. Os procedimentos integram a investigação sobre a relação entre dores musculares da mastigação e zumbido (Foto/SAMDOF-UFPR)
Em julho de 2025, o Conexão Ciência apresentou o EducaDOR, um aplicativo gratuito desenvolvido na UFPR para apoiar o automanejo da dor e complementar o tratamento da DTM. A ferramenta reúne vídeos, textos e recursos sobre exercícios mandibulares, auto massagem, meditação de atenção plena, alimentação e outros cuidados que podem ser realizados em casa.
A presença nas redes sociais e o EducaDOR mostram como a educação em dor amplia a atuação do projeto para além do consultório, aproximando a universidade da população e oferecendo referências confiáveis para decisões sobre saúde.
Segundo Priscila, a pesquisa sobre zumbido também contribui para aprofundar questões que ainda precisam ser compreendidas sobre a ocorrência simultânea de DTM e zumbido. Ao investigar se uma intervenção nos pontos musculares que modulam o sintoma pode alterar sua percepção, o estudo busca produzir conhecimentos que, futuramente, possam auxiliar na identificação de estratégias mais adequadas de avaliação e tratamento.
Ao mesmo tempo, o trabalho aproxima pesquisa, atendimento e formação. Os participantes têm acesso gratuito à avaliação e ao acompanhamento, enquanto os estudantes entram em contato com pacientes reais e com uma abordagem interdisciplinar da DTM e do zumbido. Dessa forma, questões observadas no atendimento retornam à comunidade como investigação científica, formação profissional e novas possibilidades de cuidado.
SERVIÇO – Interessados em participar da pesquisa
Público da pesquisa: pessoas com queixa de zumbido associado à DTM dolorosa
Inscrição ou formulário de interesse: PESQUISA DTM E ZUMBIDO
Informações pelo WhatsApp: +55 41 9552-7638
Local da avaliação: Clínica I do curso de Odontologia da UFPR, Campus Jardim Botânico (Av. Prefeito Lothário Meissner, nº 632, Jardim Botânico, Curitiba)
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Texto: Ana Elisa Frings
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Camila Lozeckyi
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Placas oclusais – são dispositivos removíveis feitos de resina acrílica que se encaixam sobre os dentes e ajudam a reduzir a sobrecarga sobre os músculos e as articulações da mandíbula. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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