Abelhas: é preciso cuidar dessas heroínas

Ilustração com fundo marrom texturizado e, ao centro, a silhueta amarela do mapa do Paraná contornada em preto. Dentro da área amarela há várias abelhas desenhadas, com asas azuladas e corpo listrado em preto e amarelo. Elas aparecem em diferentes pontos do mapa. Uma linha preta contínua percorre o interior da silhueta formando curvas, laços e espirais. No canto inferior esquerdo está o texto “© Conexão Ciência | Arte: Lucas Higashi”.
Com foco em apoiar o setor produtivo e desenvolver estudos para a conservação de abelhas no Paraná, NAPI se firma como forte rede de pesquisa

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Você pode não acreditar, mas uma abelha já tentou processar os humanos! Tudo começou quando Barry, uma abelha inconformada, descobriu que o mel produzido por elas é “roubado” e comercializado para o consumo humano. 

Mas calma, este é apenas o enredo do filme “Bee Movie: a história de uma abelha”.  Apesar do tom leve, o enredo enfatiza que, sem abelhas, a produção de alimentos e a diversidade vegetal seriam afetadas. 

A polinização, serviço ecossistêmico essencial prestado por esses insetos, sustenta desde grandes cadeias agrícolas até ecossistemas naturais inteiros. Logo, as inúmeras culturas que dependem direta ou indiretamente da atividade das abelhas, entrariam em colapso com a extinção ou redução de colônias. Porém, por motivos diferentes dos apresentados no filme, cuidar desses pequenos seres é uma preocupação concreta da ciência.

A imagem mostra uma cena animada em uma quadra de tênis. Um jogador está prestes a rebater uma bola gigante, muito maior do que o normal. Presa à superfície da bola está uma abelha com expressão de surpresa e desespero, braços e pernas abertos, como se estivesse sendo arrastada pela força do impacto. A cena é colorida e dinâmica, típica de uma animação, misturando humor e exagero visual.
Muito além da comédia, “Bee Movie” lembra que as abelhas são essenciais para a polinização, sustentando a fauna, a flora e o equilíbrio dos ecossistemas (Foto/Reprodução)

No Paraná, o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Abelhas articula uma rede de pesquisadores de instituições de ensino superior dedicados ao estudo das abelhas e de seus subprodutos. O NAPI tem como objetivo integrar conhecimentos científicos, apoiar o setor produtivo e agregar valor aos produtos derivados das abelhas, conectando conservação ambiental, inovação e desenvolvimento econômico.

Do apiário ao NAPI

Ainda em 2010, no campus de Dois Vizinhos, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a professora Michele Potrich começou a investigar os impactos dos agrotóxicos sobre organismos que não são o alvo direto de defensivos agrícolas, mas que podem ser afetados por eles. 

Inicialmente trabalhando com parasitoides e predadores, logo o foco se voltou de maneira mais sistemática para as abelhas, com a espécie Apis mellifera. Em parceria com a professora responsável pelo apiário do campus, Fabiana Costa, a pesquisa passou a integrar também o melhoramento genético dessas populações. “Começamos a estudar o impacto dos agrotóxicos sobre abelhas e isso foi ganhando uma proporção bastante expressiva”, lembra Michele, que hoje é uma das articuladoras do Arranjo.

Essa ampliação das pesquisas trouxe parcerias com outras universidades do Paraná, além de colaborações internacionais com instituições da Itália e dos Estados Unidos. Ainda assim, faltava uma maior articulação entre os pesquisadores. 

A concepção do NAPI Abelhas surgiu justamente da percepção de que havia pesquisadores, dados e experiências dispersos. A proposta apresentada à Fundação Araucária partiu de um princípio simples: reunir quem já trabalhava com abelhas no Paraná. “A ideia foi nuclear os pesquisadores do estado que já trabalhavam com abelhas. Era muita produção, mas pouca integração”, destaca Michele. 

Hoje, o NAPI Abelhas atua a partir de cinco grandes eixos temáticos, que dialogam entre si:

O infográfico apresenta o título “Os 5 eixos do NAPI Abelhas” em destaque na parte superior, sobre um fundo amarelado com textura que remete a papel ou a uma superfície orgânica, evocando o universo das abelhas. A composição visual utiliza formas hexagonais em tom alaranjado, semelhantes a favos de mel, distribuídas de maneira agrupada e interligada, sugerindo a ideia de rede e integração entre os diferentes eixos do projeto. Dentro desses cinco hexágonos estão os temas que estruturam o NAPI Abelhas. Um deles aborda o risco de agrotóxicos às abelhas, indicando a preocupação com os impactos ambientais e químicos sobre esses insetos. Outro apresenta a caracterização e qualidade de produtos apícolas e meliponícolas, voltado à análise e valorização de produtos como mel, própolis e pólen. Há também o eixo de melhoramento genético, relacionado ao aprimoramento das espécies de abelhas. Um quarto hexágono destaca a diversidade, ecologia e conservação de abelhas, enfatizando a preservação e o estudo da biodiversidade. Por fim, o eixo chamado escola de negócios aponta para a dimensão econômica, de gestão e inovação no setor apícola.

Numa grande teia de pesquisadores, cada eixo responde a uma dimensão específica da relação entre abelhas, ambiente, produção e sociedade. O eixo da Escola de Negócios, por exemplo, surgiu por solicitação da própria Fundação Araucária e busca apoiar apicultores e meliponicultores na agregação de valor, sustentabilidade e gestão. A preocupação é ajudar o produtor a melhorar a sustentabilidade e agregar valor ao seu produto. 

As abelhas e os agrotóxicos

Coordenado por Michele, o eixo “Risco de Agrotóxicos às Abelhas” investiga os efeitos de herbicidas, fungicidas e inseticidas em abelhas com e sem ferrão. Os testes simulam cenários reais do campo em ambiente controlado. A abelha pode se contaminar ao forragear1, ao caminhar sobre plantas pulverizadas ou ao ser atingida diretamente durante a aplicação do produto. “O que fazemos é reproduzir no laboratório tudo o que pode acontecer no agroecossistema, avaliando desde pulverização direta até ingestão pelo alimento e contato com superfícies contaminadas”, diz a professora.

  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.
  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.
  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.
  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.
  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.
  • A imagem mostra um ambiente de laboratório, com várias placas de Petri empilhadas sobre prateleiras metálicas. Dentro das placas há folhas verdes e pequenas flores amarelas, aparentemente sendo utilizadas em algum tipo de experimento. Algumas placas possuem anotações feitas à caneta na tampa, indicando identificação de amostras. Ao fundo, é possível ver mais recipientes organizados em uma estante, além de equipamentos e cabos, reforçando o caráter científico do espaço.

Além do comportamento, os pesquisadores analisam o que acontece dentro do corpo das abelhas. São realizadas análises bioquímicas, histológicas e, mais recentemente, moleculares. Em alguns experimentos, os contrastes são extremos. Produtos biológicos, aplicados na concentração utilizada no campo, não causaram danos internos. Já produtos químicos, mesmo a 10% da dose agrícola, provocaram o colapso total dos tecidos. 

O eixo coordenado por Michele também investiga os efeitos dos agrotóxicos nas fases iniciais da vida das abelhas. Larvas contaminadas podem comprometer não apenas indivíduos, mas a dinâmica de toda a colônia. Esses impactos podem refletir na produção de mel, cera e própolis, além de reduzir a capacidade de polinização.

O infográfico apresenta o título “Como as abelhas entram em contato com agrotóxicos?” em destaque na parte superior, sobre um fundo amarelado com textura semelhante à do anterior, remetendo a um ambiente natural e ao universo das colmeias. Abaixo do título, a informação é organizada por meio de quatro hexágonos, também em estilo de favos de mel, com contornos pretos e ilustrações internas que ajudam a visualizar cada forma de contaminação. No primeiro hexágono, à esquerda, aparece a imagem de um borrifador representando a pulverização direta, indicando o contato imediato das abelhas com agrotóxicos durante a aplicação nas lavouras. Ao lado, um segundo hexágono mostra uma flor com uma abelha, acompanhado da indicação de contato com flores e folhas contaminadas, sugerindo que o inseto pode se contaminar ao pousar em plantas que receberam produtos químicos. Em seguida, um terceiro hexágono apresenta a imagem de uma abelha coletando alimento, com o texto sobre a ingestão de néctar e pólen contaminados, destacando a via de contaminação alimentar. Por fim, o último hexágono traz a representação de uma colmeia com sinal de alerta, indicando a contaminação ao retornar à colônia, quando a abelha leva os resíduos para dentro do ninho, afetando outras abelhas e o ambiente interno.

Conhecimento compartilhado

O principal espaço de diálogo entre o NAPI Abelhas e a sociedade é o Workshop Bee Day, um evento itinerante criado antes mesmo da formalização do Arranjo e que hoje se consolidou como sua principal ação de devolutiva social. 

Realizado anualmente, o workshop é dedicado à apicultores e meliponicultores. “Este é um evento diferente da maioria dos eventos acadêmicos porque é feito para os produtores”. Pela manhã, os pesquisadores apresentam os resultados de cada eixo em linguagem acessível, traduzindo dados científicos em informações aplicáveis ao manejo, à produção e à conservação das abelhas”, diz Michele.

No período da tarde, o foco se desloca para atividades práticas, com a participação de instituições como Sebrae e Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR), que trabalham diretamente com os produtores em oficinas sobre custos, rendimento, agregação de valor e sustentabilidade. 

O Bee Day também reúne empresas, startups e pequenos produtores que expõem e comercializam produtos derivados das abelhas, além de promover ações educativas com escolas e crianças. É um momento no qual pesquisa, produção, mercado e comunidade se encontram e, em 2026, o evento acontece na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Ao reunir pesquisadores paranaenses de áreas distintas, o NAPI Abelhas ampliou suas próprias fronteiras científicas. Dessa articulação surgiram não apenas novas perguntas de pesquisa, mas também resultados concretos, como pedidos de patente capazes de agregar valor econômico à cadeia produtiva.

A imagem mostra um grupo de cerca de 20 a 25 pessoas reunidas em uma sala institucional, provavelmente um auditório ou sala de reuniões de uma universidade. Todos estão posando para uma foto, organizados em fileiras, com algumas pessoas em pé atrás e outras à frente. Ao fundo, há uma tela de projeção exibindo o nome do projeto “NAPI Abelhas”, com o logotipo e a identificação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Também aparece o logotipo da Fundação Araucária, indicando apoio institucional. O ambiente é formal, com iluminação de teto típica de espaços acadêmicos. Na parede atrás do grupo, é possível ver letras grandes formando a sigla “UTFPR”. À frente, há uma mesa com microfones, sugerindo que o local foi usado para apresentações, reuniões ou um evento de lançamento. As pessoas estão vestidas de forma profissional ou semi-formal, incluindo blazers, camisas sociais e vestidos. Muitas usam um pequeno broche amarelo, possivelmente relacionado à temática das abelhas ou ao projeto.
Registro das equipes da Fundação Araucária e do NAPI Abelhas, durante o lançamento oficial do Arranjo, em outubro de 2025 (Foto/NAPI Abelhas)

“Temos pessoas no projeto que nunca encostaram numa abelha, mas fazem análises químicas fundamentais para os subprodutos das abelhas. No começo, pensávamos que as entregas do NAPI seriam de processos, não de produtos e, de repente, surgiram tecnologias que a gente nem imaginava”, afirma Michele.

Esse crescimento orgânico transformou o projeto em algo maior do que um arranjo institucional. Para a professora Michele, trata-se de uma estrutura viva, que conecta ciência, produção, mercado e sociedade. “Hoje o todo é muito maior do que as partes. A pesquisa não pode ficar só dentro da universidade; ela precisa voltar para a sociedade, que é quem financia tudo isso”.

Nesse espaço de articulação, inovação e devolutiva social, o NAPI reafirma o papel da ciência pública num país marcado pela produção agrícola. Se proteger as abelhas é também proteger sistemas alimentares e economias locais, o NAPI Abelhas parece estar um passo à frente quando o assunto é cuidar dessas grandes aliadas.

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Texto:
Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

Glossário

  1. Forragear – Ato de buscar e explorar recursos alimentares. ↩︎

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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