Você pode não acreditar, mas uma abelha já tentou processar os humanos! Tudo começou quando Barry, uma abelha inconformada, descobriu que o mel produzido por elas é “roubado” e comercializado para o consumo humano.
Mas calma, este é apenas o enredo do filme “Bee Movie: a história de uma abelha”. Apesar do tom leve, o enredo enfatiza que, sem abelhas, a produção de alimentos e a diversidade vegetal seriam afetadas.
A polinização, serviço ecossistêmico essencial prestado por esses insetos, sustenta desde grandes cadeias agrícolas até ecossistemas naturais inteiros. Logo, as inúmeras culturas que dependem direta ou indiretamente da atividade das abelhas, entrariam em colapso com a extinção ou redução de colônias. Porém, por motivos diferentes dos apresentados no filme, cuidar desses pequenos seres é uma preocupação concreta da ciência.

No Paraná, o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Abelhas articula uma rede de pesquisadores de instituições de ensino superior dedicados ao estudo das abelhas e de seus subprodutos. O NAPI tem como objetivo integrar conhecimentos científicos, apoiar o setor produtivo e agregar valor aos produtos derivados das abelhas, conectando conservação ambiental, inovação e desenvolvimento econômico.
Do apiário ao NAPI
Ainda em 2010, no campus de Dois Vizinhos, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a professora Michele Potrich começou a investigar os impactos dos agrotóxicos sobre organismos que não são o alvo direto de defensivos agrícolas, mas que podem ser afetados por eles.
Inicialmente trabalhando com parasitoides e predadores, logo o foco se voltou de maneira mais sistemática para as abelhas, com a espécie Apis mellifera. Em parceria com a professora responsável pelo apiário do campus, Fabiana Costa, a pesquisa passou a integrar também o melhoramento genético dessas populações. “Começamos a estudar o impacto dos agrotóxicos sobre abelhas e isso foi ganhando uma proporção bastante expressiva”, lembra Michele, que hoje é uma das articuladoras do Arranjo.
Essa ampliação das pesquisas trouxe parcerias com outras universidades do Paraná, além de colaborações internacionais com instituições da Itália e dos Estados Unidos. Ainda assim, faltava uma maior articulação entre os pesquisadores.
A concepção do NAPI Abelhas surgiu justamente da percepção de que havia pesquisadores, dados e experiências dispersos. A proposta apresentada à Fundação Araucária partiu de um princípio simples: reunir quem já trabalhava com abelhas no Paraná. “A ideia foi nuclear os pesquisadores do estado que já trabalhavam com abelhas. Era muita produção, mas pouca integração”, destaca Michele.
Hoje, o NAPI Abelhas atua a partir de cinco grandes eixos temáticos, que dialogam entre si:

Numa grande teia de pesquisadores, cada eixo responde a uma dimensão específica da relação entre abelhas, ambiente, produção e sociedade. O eixo da Escola de Negócios, por exemplo, surgiu por solicitação da própria Fundação Araucária e busca apoiar apicultores e meliponicultores na agregação de valor, sustentabilidade e gestão. A preocupação é ajudar o produtor a melhorar a sustentabilidade e agregar valor ao seu produto.
As abelhas e os agrotóxicos
Coordenado por Michele, o eixo “Risco de Agrotóxicos às Abelhas” investiga os efeitos de herbicidas, fungicidas e inseticidas em abelhas com e sem ferrão. Os testes simulam cenários reais do campo em ambiente controlado. A abelha pode se contaminar ao forragear1, ao caminhar sobre plantas pulverizadas ou ao ser atingida diretamente durante a aplicação do produto. “O que fazemos é reproduzir no laboratório tudo o que pode acontecer no agroecossistema, avaliando desde pulverização direta até ingestão pelo alimento e contato com superfícies contaminadas”, diz a professora.
Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal) Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal) Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal) Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal) Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal) Alguns dos estudos desenvolvidos pelo NAPI Abelhas (Foto/Arquivo pessoal)
Além do comportamento, os pesquisadores analisam o que acontece dentro do corpo das abelhas. São realizadas análises bioquímicas, histológicas e, mais recentemente, moleculares. Em alguns experimentos, os contrastes são extremos. Produtos biológicos, aplicados na concentração utilizada no campo, não causaram danos internos. Já produtos químicos, mesmo a 10% da dose agrícola, provocaram o colapso total dos tecidos.
O eixo coordenado por Michele também investiga os efeitos dos agrotóxicos nas fases iniciais da vida das abelhas. Larvas contaminadas podem comprometer não apenas indivíduos, mas a dinâmica de toda a colônia. Esses impactos podem refletir na produção de mel, cera e própolis, além de reduzir a capacidade de polinização.

Conhecimento compartilhado
O principal espaço de diálogo entre o NAPI Abelhas e a sociedade é o Workshop Bee Day, um evento itinerante criado antes mesmo da formalização do Arranjo e que hoje se consolidou como sua principal ação de devolutiva social.
Realizado anualmente, o workshop é dedicado à apicultores e meliponicultores. “Este é um evento diferente da maioria dos eventos acadêmicos porque é feito para os produtores”. Pela manhã, os pesquisadores apresentam os resultados de cada eixo em linguagem acessível, traduzindo dados científicos em informações aplicáveis ao manejo, à produção e à conservação das abelhas”, diz Michele.
No período da tarde, o foco se desloca para atividades práticas, com a participação de instituições como Sebrae e Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR), que trabalham diretamente com os produtores em oficinas sobre custos, rendimento, agregação de valor e sustentabilidade.
O Bee Day também reúne empresas, startups e pequenos produtores que expõem e comercializam produtos derivados das abelhas, além de promover ações educativas com escolas e crianças. É um momento no qual pesquisa, produção, mercado e comunidade se encontram e, em 2026, o evento acontece na Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Ao reunir pesquisadores paranaenses de áreas distintas, o NAPI Abelhas ampliou suas próprias fronteiras científicas. Dessa articulação surgiram não apenas novas perguntas de pesquisa, mas também resultados concretos, como pedidos de patente capazes de agregar valor econômico à cadeia produtiva.

“Temos pessoas no projeto que nunca encostaram numa abelha, mas fazem análises químicas fundamentais para os subprodutos das abelhas. No começo, pensávamos que as entregas do NAPI seriam de processos, não de produtos e, de repente, surgiram tecnologias que a gente nem imaginava”, afirma Michele.
Esse crescimento orgânico transformou o projeto em algo maior do que um arranjo institucional. Para a professora Michele, trata-se de uma estrutura viva, que conecta ciência, produção, mercado e sociedade. “Hoje o todo é muito maior do que as partes. A pesquisa não pode ficar só dentro da universidade; ela precisa voltar para a sociedade, que é quem financia tudo isso”.
Nesse espaço de articulação, inovação e devolutiva social, o NAPI reafirma o papel da ciência pública num país marcado pela produção agrícola. Se proteger as abelhas é também proteger sistemas alimentares e economias locais, o NAPI Abelhas parece estar um passo à frente quando o assunto é cuidar dessas grandes aliadas.
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Texto: Guilherme de Souza Oliveira
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Lucas Higashi
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento
Glossário
- Forragear – Ato de buscar e explorar recursos alimentares. ↩︎
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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