Como a cultura hip-hop conecta estrangeiros ao Brasil?

Ilustração em estilo grafite sobre fundo com a bandeira do Brasil. No centro, a palavra “Brasil” aparece em letras grandes, verdes e arredondadas, com contornos e detalhes que lembram volume. Ao redor, há elementos coloridos e simbólicos: flores vermelhas com olhos no lugar do miolo, folhas verdes, uma estrela amarela e formas abstratas. À direita, um tucano de bico amarelo e laranja observa a cena. Duas pessoas pintam: uma mulher em pé numa escada e outra figura ao lado, ambas com pincéis. Na parte inferior, há traços e símbolos amarelos estilizados.
Programa de Estudantes-Convênio de Português da UFPR transforma música e arte em ferramenta de ensino da nossa língua para estrangeiroso

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Imagine desembarcar em um país novo, com mais de 8 milhões e meio de extensão, considerado o 5° maior do mundo, com 26 estados e um distrito federal e uma variedade linguística e cultural gigantesca, atrás de um sonho: se tornar um estudante acadêmico.  E você, vindo de uma cultura e país totalmente diferentes, decide estudar uma língua nova, a língua portuguesa e assim, conseguir ingressar em um universidade no Brasil. Mas, por onde começar? Como aprender uma língua estrangeira e imergir na cultura?

Em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), esse processo é possível através do Programa de Estudantes-Convênio de Português como Língua Estrangeira (PEC-PLE) que oferece oportunidades de formação superior gratuita a cidadãos de países em desenvolvimento. Todavia, diferente do ensino tradicional, o curso busca sair da “decoreba” de vocabulário e da gramática e explora atividades práticas do dia a dia pela música, por discussões críticas e pela arte, mais especificamente, pelo grafite e o hip-hop.

A coordenadora e professora de Português para Estrangeiros na UFPR, Pollianna Milan, explica que todas atividades do programa são pensadas também na cultura brasileira, uma vez que são duas coisas indissociáveis. “A gente não consegue ensinar a língua sem pensar em cultura. Então, essas atividades artísticas, de uma certa forma, também envolvem as aulas de português para o PEC-PLE, porque nós queremos muito que eles reflitam sobre quem eles são nesse mundo, a partir, inclusive, da cultura do outro”, ressalta. 

E como o grafite e o hip-hop podem ajudar nesse processo? 

No programa, o grafite se torna uma ferramenta de expressão e aprendizagem, enquanto o hip-hop reúne crítica social e musicalidade, aproximando estudantes de diferentes idades e origens. Nas primeiras aulas dedicadas ao tema, a turma mergulhou na análise da música AmarElo: discutiu a letra, o clipe e os personagens, além de trabalhar questões gramaticais a partir da canção.

“Lembro que, num primeiro momento, quando ouviram a música, eles disseram que era uma música de força, que trazia esperança. Achei maravilhoso essa primeira leitura, porque eu também, quando ouvi a primeira vez, tive os mesmos sentimentos. Então a gente teve uma conversa bem legal sobre isso”, relembra a professora-bolsista Emanuelli Oliveira, formada em portugues e espanhol pela UFPR e atuante na área de Linguística, com foco no desenvolvimento de materiais didáticos para o PEC-PLE.

Na aula seguinte, a discussão se ampliou para o papel do hip-hop no Brasil e sua relação com questões sociais. Para aprofundar o debate, a turma assistiu ao documentário do cantor Emicida e acompanhou como o rap se tornou uma voz de luta e como o artista utiliza a música para falar de questões políticas e sociais.

“Voltar ao documentário e perceber as questões históricas dentro da música mudou a visão deles sobre a própria canção. Quando retomamos o material, com o Emicida falando da própria arte e de como a cultura hip-hop ajuda um coletivo a ser ouvido, a turma passou a se identificar mais com as oficinas culturais e também com a música”, explica.

Com o avanço das atividades, a mudança deixou de ser apenas individual e passou a ser coletiva. A turma começou a se enxergar de outra forma e, apesar das diferenças culturais e linguísticas, passou a se perceber como uma comunidade que convive diariamente e precisa se apoiar. A música, antes vista apenas como uma canção de esperança, passou a ser entendida também como uma canção de resistência.

Foi nesse momento que surgiu a ideia de levar a discussão para o grafite, uma manifestação artística presente em todos os lugares e muitas vezes vista com preconceito, mas com enorme potência expressiva. A partir disso, nasce a proposta de fazer um mural coletivo com a turma. 

Mas por que um mural coletivo?

“A ideia é que cada um, depois de ouvir a música, depois de discutir em sala de aula com os colegas e professora, eles teriam que pensar em uma imagem, em uma palavra, em um sentimento, que dialogasse com ele naquele momento, com a pessoa que ele se tornou dentro do Brasil. E então teria que passar isso para o mural”, explica Emanuelli.

Depois de discussões que envolveram questões raciais, machismo, misoginia, xenofobia e problemas sociais presentes no Brasil e no mundo, a turma levou as reflexões para a parede e o mural começou a ganhar forma.

“Foi um momento também deles colocarem para fora, através do grafite, uma parte de si mesmos, uma parte que era dolorida, ou que eles não conseguiam expressar na língua alfa. Alguns, inclusive, colocaram palavras na própria língua materna, mas era uma tentativa de expressar o que eles estavam sentindo. Então, o grafite vem muito como essa válvula de escape dentro dessa aula”, relata a professora.

  • Painel de grafite coletivo com fundo multicolorido, misturando amarelo, verde, vermelho e azul. A palavra “hip-hop” aparece em destaque com letras grandes contornadas em preto. Sobre o mural, há diversas intervenções: desenhos, símbolos, palavras e frases em diferentes cores e estilos. Na parte inferior, várias latas de tinta spray estão alinhadas. O mural mostra camadas sobrepostas de pintura, evidenciando a participação de várias pessoas.
  • Sala de aula com um grande painel de papel pardo colado na parede, protegido com fitas. No centro, um grafite com letras grandes em azul e verde forma a palavra “hip-hop”. Abaixo, há rabiscos em vermelho. No chão, três telas coloridas com frases e desenhos feitos pelos estudantes. À esquerda, várias latas de tinta spray estão organizadas lado a lado. Ao fundo, há um quadro verde e um projetor ligado.
  • Montagem com vários detalhes de um mural de grafite colorido. Há formas abstratas em tons de amarelo, verde, vermelho e azul, além de palavras e símbolos. Em um dos quadros, aparece um olho estilizado com lágrimas coloridas. Em outro, um punho cerrado em preto, símbolo de resistência. Também há palavras como “liberdade” e frases parcialmente legíveis, além de desenhos sobrepostos e camadas de tinta spray.

A proposta também está ligada à autonomia dos estudantes, especialmente daqueles que chegam a um novo país e ainda não dominam a língua. “As pessoas começam a falar por você, começam a ditar o que você está sentindo, o que você quer”, afirma Emanuelli, reforçando a necessidade de criar espaços em que os alunos possam se expressar por conta própria.

Nesse sentido, o grafite aparece como uma “válvula de escape”, permitindo que aquilo que ainda não pode ser dito em palavras ganhe forma visual e se conecte à cultura hip-hop, que defende a ideia de que ‘se eu não consigo falar por mim, vai ter alguém que vai conseguir falar por todos nós’.

A oficina só foi possível graças à parceria com um instrutor convidado. Como não é grafiteira, Emanuelli buscou um artista local de Curitiba e entrou em contato com Gustavo Silva, que conduziu as oficinas em 2023, 2024 e 2025. Enquanto ela ficou responsável pela parte teórica, o artista ensinou a prática, mostrando aos alunos como manusear a tinta e recortar desenhos e palavras. O resultado foi uma experiência coletiva marcante, com os estudantes colocando a mão na massa.

  • Dois participantes trabalham juntos na produção do mural em uma sala de aula. Um homem usa um spray para aplicar tinta sobre um molde de papel com letras, enquanto outra pessoa segura o papel contra a parede. Ao fundo, há um grafite com cores vibrantes e a palavra “hip-hop” em destaque, além de latas de tinta sobre uma mesa.
  • Duas pessoas seguram uma folha de papel com letras recortadas formando a frase “NÃO AO RACISMO”. A frase aparece em vermelho, aplicada com tinta spray. Ao fundo, há um mural colorido com formas abstratas em tons de amarelo, verde e azul.
  • Dois jovens estão de costas, em pé, trabalhando juntos em um mural. Eles estão diante de uma grande superfície coberta com papel pardo preso com pedaços de fita adesiva. O mural apresenta letras grandes em estilo grafite, com contornos pretos e preenchimento em cores vibrantes como verde, azul, amarelo e laranja. O jovem à esquerda usa camiseta preta e tem cabelo curto; o da direita usa um moletom cinza e tem cabelo curto e crespo. O jovem da direita estende o braço, apontando ou ajustando um papel ou molde sobre a parede, enquanto o outro observa de perto. Na parte superior, há a projeção de uma tela com texto pouco legível, sugerindo que o trabalho acontece em uma sala de aula ou oficina. O ambiente transmite colaboração e processo criativo em andamento.
  • Sobre uma mesa de superfície verde-clara, há uma folha branca posicionada na diagonal. Nela, aparece um desenho feito com tinta spray: um punho fechado em cor azul escura, com contornos suaves e levemente borrados, como um estêncil. No pulso do punho há uma corrente quebrada, sugerindo libertação. Acima do desenho, em tinta verde, está a palavra “Liberdade”, com algumas falhas e sobreposição de tinta, indicando o uso de molde. Ao redor da folha, há marcas de tinta colorida espalhadas na mesa e em outros papéis parcialmente visíveis. No canto inferior da imagem, aparece o topo de uma lata de spray rosa, fora de foco. Ao fundo, há outra lata de tinta spray e parte de uma cadeira, indicando um ambiente de criação artística.

A atividade de grafite, no entanto, não é uma prática isolada e compõe uma proposta pedagógica mais ampla, que busca articular o ensino da língua portuguesa a experiências culturais e práticas do cotidiano. A iniciativa amplia as possibilidades de aprendizagem e reforça a concepção de que a língua se constrói também além dos espaços tradicionais de ensino.

Como citado anteriormente, a experiência faz parte do Programa de Estudantes-Convênio de Portugues como Língua Estrangeira (PEC-PLE), uma etapa fundamental para estrangeiros que desejam ingressar no ensino superior no Brasil. E como esse programa funciona? Fica por aqui que o C2 te conta tudo!

O que é o PEC-PLE?

O PEC-PLE está vinculado ao Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), uma iniciativa do Governo Federal, coordenada pelos ministérios das Relações Exteriores (MRE) e da Educação (MEC). Há décadas, o PEC-G promove a cooperação educacional internacional ao conectar instituições de ensino superior brasileiras a estudantes de países em desenvolvimento, oferecendo vagas gratuitas em cursos de graduação.

O que é necessário para participar do programa?

Para se tornar um estudante PEC-G é necessário cumprir uma série de requisitos, como ter concluído o ensino médio, comprovar condições de permanência no país e, principalmente, demonstrar proficiência em língua portuguesa. Está última etapa normalmente se torna um dos principais desafios dos estudantes estrangeiros que chegam ao Brasil.

É justamente nesse ponto que o PEC-PLE entra em cena. Voltado a candidatos que ainda não possuem certificação em português, o programa oferece um ano de formação intensiva antes do início da graduação. Durante esse período, os estudantes vivem no Brasil e frequentam cursos em instituições credenciadas, com foco no desenvolvimento da leitura, escrita, escuta e fala, além da imersão na cultura brasileira.

Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o PEC-PLE é desenvolvido com o apoio do Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin) e do Núcleo de Línguas (Nucli – Idiomas sem Fronteiras), em articulação com o Escritório de Relações Internacionais. A formação é organizada em frentes como produção textual, expressão oral, ensino por projetos e oficinas culturais. Ao final do ciclo, os estudantes realizam o Celpe-Bras, exame oficial que certifica a proficiência em português. A aprovação é o que garante o acesso à graduação pelo PEC-G.

Nesse sentido, o PEC-PLE se configura como um período de adaptação e construção de pertencimento, em que aprender a língua também significa aprender a viver e se reconhecer em um novo contexto cultural. Ao integrar diferentes eixos, como arte, cultura e ensino, a experiência evidencia que o aprendizado de um idioma ultrapassa os limites da sala de aula. “Temos aulas de fotografia, pintura, pintura em tela e até em camiseta. Qualquer manifestação artística e cultural contribui muito para o acolhimento e para a compreensão de quem nós somos, brasileiros, no mundo desses estudantes estrangeiros, internacionais, migrantes ou refugiados”, reforçou a professora Pollianna.

Se no início o desafio era dominar uma nova língua, ao longo do percurso se transforma em algo ainda maior: trata-se de aprender a se expressar em um novo mundo. Nesse processo, cada palavra, ou traço, deixa de ser apenas tradução e passa a carregar múltiplos sentidos. Isso porque uma língua não se resume a estruturas gramaticais, uma vez que envolve comportamentos, valores e formas de interpretar a realidade. Cada expressão traz marcas de um contexto social, histórico e simbólico, que orienta a comunicação e a construção de sentido.

Aprender um idioma, portanto, é também compreender gestos, referências culturais, variações de fala e até silêncios. É nessa imersão que o estudante se desenvolve para além da capacidade de se comunicar e aprende a se inserir em diferentes contextos sociais.

No podcast “Conexão Estrangeiros”, você conhece um pouco da trajetória do estudante internacional Rodolfo Bracamontes e sua jornada no curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por meio do PEC-PLE. Confira!

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Texto:
Sabrina Heck e Yumi Aoki
Supervisão de Texto: Ana Paula Machado Velho
Revisão de texto: Silvia Calciolari
Arte: Nathália Montalvão
Supervisão de arte: Lucas Higashi
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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