Da planta à fórmula: quando o campo vira laboratório

Ilustração em estilo cartoon mostra uma personagem com cabelos castanhos observando com um grande olho ampliado por uma lente de aumento rosa. O olho ocupa o centro da imagem e apresenta brilho estrelado na pupila. A personagem sorri enquanto aparece atrás de uma mesa azul com diversos objetos de laboratório e elementos naturais. Sobre a mesa há um equipamento cinza, um recipiente de medição, frascos pequenos, comprimidos, velas, plantas em vasos e um caderno. O fundo é rosa-claro com linhas em grade azul, criando aspecto gráfico e científico.
Em Prudentópolis, um clube de ciências transforma plantas nativas em cosméticos sustentáveis e mostra que a ciência também nasce no interior

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Há uma hora certa para colher. Quem mora no campo sabe disso antes mesmo de aprender a ler. Sabe pelo cheiro, pela cor da folha, pelo peso do galho na mão. Esse conhecimento atravessa gerações e raramente ganha nome científico. Fica guardado nas receitas de sabão que a avó fazia no fundo do quintal, no chá que o pai preparava sem medir nada, no repelente improvisado com o que tinha na roça.

No Colégio Estadual do Campo Bispo Dom José Martenetz, em Prudentópolis, no interior do Paraná, esse saber popular ganhou jaleco, funil de decantação e relatório científico. É o clube Tijuco Preto (Óleo nos Olhos), onde estudantes do ensino fundamental e médio aprendem a extrair óleos essenciais de plantas nativas e a transformá-los em produtos cosméticos: sabonetes, velas aromáticas, bálsamos, repelentes, perfumes de ambiente. O lema é simples e direto: “da planta à fórmula”.

Foto de três estudantes uniformizados — camiseta cinza com listras azuis e vermelhas — cortando folhas verdes com tesouras sobre uma bancada coberta de vegetação picada. Ao fundo, caixas empilhadas e equipamentos de laboratório.
Tudo começa na planta (Foto/Arquivo pessoal)

Um farmacêutico no meio do carvão

O professor Carlos Eduardo Basso Christo tem formação em farmácia generalista e anos de experiência como docente do ensino técnico-profissionalizante. Quando chegou ao Dom Martenetz, trouxe na bagagem esse conhecimento de manipulação farmacêutica. Mas o contexto que encontrou exigiu muito mais do que técnica.

A localidade do colégio, no interior de Prudentópolis, é de minifúndios. Boa parte das famílias dos alunos vive em pequenas propriedades rurais — um alqueire, dois alqueires de terra — sem escala para plantar soja ou grandes culturas. O principal meio de subsistência é o carvão vegetal, produção que envolve corte de madeira, fornos artesanais e exposição constante a fumaça e fuligem. “A gente vê, às vezes, eles saindo com as ‘motinhas tudo’ cheias de fuligem de carvão. E eles entram dentro daqueles fornos, estão respirando aquilo”, conta o professor.

Foto de um adulto de óculos e camiseta preta registrando uma selfie com três adolescentes ao redor de uma mesa coberta por uma toalha estampada. Sobre a mesa, uma cuia de chimarrão e uma garrafa térmica preta.
Professor Carlos com os alunos (Foto/Arquivo pessoal)

Foi dentro desse quadro que surgiu a semente do clube. Carlos queria trabalhar com seus alunos o tema das notícias falsas — fenômeno que, no contexto rural, costuma se manifestar de formas bastante concretas: negacionismo científico, desconfiança de vacinas, uso indiscriminado de agrotóxicos sem equipamento de proteção. “Eu pensei: como posso mostrar para eles que existe ciência, como que se faz ciência?” A resposta veio da junção entre sua formação em farmácia e a ideia de um projeto de desenvolvimento sustentável. Se as famílias dependem do extrativismo predatório, por que não mostrar que as plantas daquela região têm valor de outro jeito?

Picar mato também é ciência

As terças-feiras, no clube, têm uma rotina bem definida, distribuída em três aulas geminadas. O grupo se divide: enquanto os alunos do ensino médio estão no laboratório, os do fundamental trabalham no laboratório de informática — escrevendo, registrando dados, organizando os achados das experiências. Depois, trocam.

No laboratório, a primeira aula começa com o que o professor chama, sem cerimônia, de “picar mato”. As plantas coletadas — capim-limão, lavanda, citronela, alecrim — são cortadas em pedaços menores para aumentar a superfície de contato e potencializar a extração do óleo durante a destilação. “Você pica, aumenta a superfície de contato, coloca no destilador. Primeira aula, picar mato”, resume Carlos.

A segunda e a terceira aulas são dedicadas à formulação. Os alunos trabalham com receitas buscadas em livros de farmacotécnica e de manipulação farmacêutica, ajustando proporções, testando texturas, avaliando resultados. Para produtos como bálsamos e sabonetes, medem espalhabilidade, textura e aroma em gráficos de radar — uma ferramenta de análise sensorial adaptada por Carlos para o contexto escolar. No final de cada aula, há perguntas questionadoras: o que foi feito, por quê deu certo, por quê não deu.

Infográfico ilustrado apresenta seis etapas da produção no Clube de Ciências “Olhos nos Óleos”. O fundo é rosa-claro com linhas em grade azul. Na etapa 1, uma personagem coleta plantas aromáticas. Na etapa 2, folhas e ervas são cortadas e organizadas. Na etapa 3, ocorre a destilação em equipamento de laboratório para extração de óleos essenciais. Na etapa 4, ingredientes naturais são misturados em recipientes. Na etapa 5, os produtos passam por testes e análises. Na etapa 6, aparecem os produtos finalizados, como frascos, velas e sabonetes.

Sobre os erros, o professor não tem papas na língua: “Dá errado muita coisa. Dá muita fórmula errada. Mas isso que é o legal, porque você está fazendo ciência”. O alecrim, por exemplo, foi aposentado definitivamente do cardápio de destilações depois que o hidrolato exalou um odor tão intenso que tomou conta de toda a escola. “Alecrim é uma coisa que a gente não destila mais. Fedeu a escola inteira, olha. É um negócio absurdo, ruim.” Há também o episódio do destilador de vidro que estourou durante uma aula — um fenômeno chamado bumping, bolhas bruscas formadas durante a fervura que sacudiram o equipamento com força suficiente para derrubá-lo. Ninguém se machucou, mas o susto foi pedagógico à sua maneira.

Trabalhar com chama, soda cáustica e vidro frágil ao redor de adolescentes exige atenção permanente. Carlos não esconde o cansaço: “A vontade é só de abrir uma cerveja, sabe? Porque meu negócio não é bolinho, não.” Mas completa, quase imediatamente: “É bom, eu gosto. Porque você está trabalhando ciência, você está fazendo isso pensar.”

O interior como laboratório vivo

Isabelle Chelsky tem exatamente a trajetória que Carlos imaginava quando criou o clube. Aluna do colégio, soube do projeto quando seu professor de Química comentou, em sala, que estavam aguardando a resposta para abrir o clube na escola. A curiosidade foi imediata. “Eu sempre gostei muito de Química e achei que seria uma experiência diferente e ia agregar muito para mim.”

Antes do clube, Isabelle tinha uma imagem de ciência moldada pelas telas: jalecos brancos imaculados, tubinhos coloridos, laboratórios assépticos. O projeto transformou essa visão. “Me mostrou que a ciência está presente no nosso dia a dia. Como temos que fazer os testes e a gente sempre está sujeito a errar para poder entender como funciona a natureza”, conta Isabelle.

Foto de uma estudante sorrindo enquanto corta hastes de capim comprido com uma tesoura vermelha. Sobre a bancada, feixes de folhas verdes espalhados e uma sacola plástica branca. À esquerda, mãos de outra pessoa segurando mais hastes.
Picar cebolinha é parte da rotina (Foto/Arquivo pessoal)

O que mais a surpreendeu foi perceber que o interior já era, ele mesmo, um espaço de conhecimento. “O interior é um laboratório vivo. Enquanto na cidade a ciência geralmente é mais teórica, aqui nós mesmos coletamos as plantas para nossa produção”, explica a estudante. Mais do que isso: a comunidade já carregava um saber acumulado sobre as plantas locais. Muitas famílias fazem o próprio sabão em casa há décadas. O clube não ignorou esse conhecimento — foi construído sobre ele. “No projeto, a gente só pega esse saber popular e adiciona um método científico. A gente cria algo com mais qualidade, com um pH mais controlado e aromas naturais”, completa.

A parte mais desafiadora, conta Isabelle, é a das fórmulas. Não existe receita definitiva. Existe teste, ajuste, refação. “São muitos os testes que a gente faz para não ficar muito oleoso, para não ficar muito ácido. Sempre tem que estar numa quantidade exata para o uso.” É frustrante, às vezes. E é exatamente isso que ela considera mais formativo.

  • Sequência de imagens que registra as etapas de produção no laboratório do clube: pesagem de insumos em balança digital, aquecimento de substâncias em banho-maria e separação de fases líquidas em funil de decantação, evidenciando a fina camada dourada de óleo essencial sobre a fase aquosa.
  • Sequência de imagens que registra as etapas de produção no laboratório do clube: pesagem de insumos em balança digital, aquecimento de substâncias em banho-maria e separação de fases líquidas em funil de decantação, evidenciando a fina camada dourada de óleo essencial sobre a fase aquosa.
  • Sequência de imagens que registra as etapas de produção no laboratório do clube: pesagem de insumos em balança digital, aquecimento de substâncias em banho-maria e separação de fases líquidas em funil de decantação, evidenciando a fina camada dourada de óleo essencial sobre a fase aquosa.
  • Sequência de imagens que registra as etapas de produção no laboratório do clube: pesagem de insumos em balança digital, aquecimento de substâncias em banho-maria e separação de fases líquidas em funil de decantação, evidenciando a fina camada dourada de óleo essencial sobre a fase aquosa.
  • Sequência de imagens que registra as etapas de produção no laboratório do clube: pesagem de insumos em balança digital, aquecimento de substâncias em banho-maria e separação de fases líquidas em funil de decantação, evidenciando a fina camada dourada de óleo essencial sobre a fase aquosa.

O clube também aproximou Isabelle da universidade de uma forma que ela não esperava. A recente visita ao Câmpus Cedeteg, da Unicentro, em Guarapuava, foi, para muitos alunos, o primeiro contato real com um laboratório acadêmico. “A gente pôde ver de pertinho como realmente é estar aí”, conta. Para ela, ver que existe um caminho concreto entre a roça de Prudentópolis e os corredores de uma universidade mudou algo. “Projetos assim abrem portas, porque mostram que as universidades também são nosso lugar e como a gente pode usar a ciência para melhorar a nossa qualidade de vida aqui da nossa própria comunidade.”

Foto de quatro estudantes em um laboratório universitário. Um deles se inclina sobre a bancada manuseando um frasco pequeno, enquanto os outros observam sorrindo. Ao fundo, um quadro-negro com anotações científicas escritas em giz colorido.
Clubistas em visita à Unicentro em maio (Foto/Arquivo pessoal)

Sementes de futuro

O professor Carlos pensa no clube também como uma provocação de longo prazo. Prudentópolis tem cachoeiras, tem paisagem, tem plantas aromáticas em abundância. Ele imagina, em voz alta, a possibilidade de um cooperativismo local em torno dos óleos essenciais — produção artesanal de qualidade, turismo ecológico, renda que não dependa de entrar em um forno de carvão. “A gente vai semeando em sala de aula. Uma hora, talvez, surja uma ideia, alguma coisa para eles desenvolverem.”

  • Os produtos finais do clube: frascos de óleos essenciais rotulados com nomes das plantas nativas, sabonetes em diferentes fases — da forma líquida nos moldes ao produto curado e seco — repelentes embalados e pesados em balança digital, e batons formulados com cera e óleos essenciais.
  • Os produtos finais do clube: frascos de óleos essenciais rotulados com nomes das plantas nativas, sabonetes em diferentes fases — da forma líquida nos moldes ao produto curado e seco — repelentes embalados e pesados em balança digital, e batons formulados com cera e óleos essenciais.
  • Os produtos finais do clube: frascos de óleos essenciais rotulados com nomes das plantas nativas, sabonetes em diferentes fases — da forma líquida nos moldes ao produto curado e seco — repelentes embalados e pesados em balança digital, e batons formulados com cera e óleos essenciais.
  • Os produtos finais do clube: frascos de óleos essenciais rotulados com nomes das plantas nativas, sabonetes em diferentes fases — da forma líquida nos moldes ao produto curado e seco — repelentes embalados e pesados em balança digital, e batons formulados com cera e óleos essenciais.
  • Os produtos finais do clube: frascos de óleos essenciais rotulados com nomes das plantas nativas, sabonetes em diferentes fases — da forma líquida nos moldes ao produto curado e seco — repelentes embalados e pesados em balança digital, e batons formulados com cera e óleos essenciais.

Christo sabe que isso não depende só da escola. Depende de política pública, de interesse da prefeitura, de incentivo externo. Mas também sabe que o conhecimento que os alunos estão construindo, sobre plantas, sobre formulação, sobre método científico, sobre como ler um rótulo e questionar uma notícia falsa — já é real. Já existe. Já mudou alguma coisa.

Na Mostra Científica do Paraná Faz Ciência, em 2025, na Unicentro, foram apresentados os projetos de destilação a vapor, hidrodestilação, batom, velas aromáticas e loção repelente com citronela. As velas fizeram mais sucesso: “é a coisa mais simples do mundo, mas pega todo mundo. É cheirosinho e tal.” Os sabonetes também atraíram público. O bálsamo natural de cera de abelha, óleo de coco e óleos essenciais — desenvolvido este ano — vai ser o próximo a ganhar as bancadas de apresentação.

Foto de quatro estudantes ao redor de uma bancada de laboratório escolar. Ao centro, um aparato de destilação de vidro — balão volumétrico com folhas verdes no interior, conectado a colunas e condensador — sobre um aquecedor elétrico. À direita, uma estudante sorri para a câmera.
A união (do campo) faz a força (Foto/Arquivo pessoal)

Quando os alunos do Ensino Médio de Carlos começam a reconhecer, nas aulas de Química, os processos que já vivenciaram no laboratório do clube — a separação de misturas, o funil de decantação, a fase aquosa e a fase oleosa —, algo se encaixa. A teoria encontra cheiro, textura e temperatura. “Eles falam: ah, professor, a gente fez isso! E aí eles começam a linkar.”

É isso que o professor chama de ciência. Não a do jaleco branco e dos tubinhos coloridos. A do mato picado, do destilador de inox, da fórmula que deu errado três vezes antes de dar certo. A que nasce de quem já sabia, antes de qualquer aula, que existe uma hora certa para colher.

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Texto:
Thiago de Oliveira, com apuração de Matias Trindade
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

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