Há uma hora certa para colher. Quem mora no campo sabe disso antes mesmo de aprender a ler. Sabe pelo cheiro, pela cor da folha, pelo peso do galho na mão. Esse conhecimento atravessa gerações e raramente ganha nome científico. Fica guardado nas receitas de sabão que a avó fazia no fundo do quintal, no chá que o pai preparava sem medir nada, no repelente improvisado com o que tinha na roça.
No Colégio Estadual do Campo Bispo Dom José Martenetz, em Prudentópolis, no interior do Paraná, esse saber popular ganhou jaleco, funil de decantação e relatório científico. É o clube Tijuco Preto (Óleo nos Olhos), onde estudantes do ensino fundamental e médio aprendem a extrair óleos essenciais de plantas nativas e a transformá-los em produtos cosméticos: sabonetes, velas aromáticas, bálsamos, repelentes, perfumes de ambiente. O lema é simples e direto: “da planta à fórmula”.

Um farmacêutico no meio do carvão
O professor Carlos Eduardo Basso Christo tem formação em farmácia generalista e anos de experiência como docente do ensino técnico-profissionalizante. Quando chegou ao Dom Martenetz, trouxe na bagagem esse conhecimento de manipulação farmacêutica. Mas o contexto que encontrou exigiu muito mais do que técnica.
A localidade do colégio, no interior de Prudentópolis, é de minifúndios. Boa parte das famílias dos alunos vive em pequenas propriedades rurais — um alqueire, dois alqueires de terra — sem escala para plantar soja ou grandes culturas. O principal meio de subsistência é o carvão vegetal, produção que envolve corte de madeira, fornos artesanais e exposição constante a fumaça e fuligem. “A gente vê, às vezes, eles saindo com as ‘motinhas tudo’ cheias de fuligem de carvão. E eles entram dentro daqueles fornos, estão respirando aquilo”, conta o professor.

Foi dentro desse quadro que surgiu a semente do clube. Carlos queria trabalhar com seus alunos o tema das notícias falsas — fenômeno que, no contexto rural, costuma se manifestar de formas bastante concretas: negacionismo científico, desconfiança de vacinas, uso indiscriminado de agrotóxicos sem equipamento de proteção. “Eu pensei: como posso mostrar para eles que existe ciência, como que se faz ciência?” A resposta veio da junção entre sua formação em farmácia e a ideia de um projeto de desenvolvimento sustentável. Se as famílias dependem do extrativismo predatório, por que não mostrar que as plantas daquela região têm valor de outro jeito?
Picar mato também é ciência
As terças-feiras, no clube, têm uma rotina bem definida, distribuída em três aulas geminadas. O grupo se divide: enquanto os alunos do ensino médio estão no laboratório, os do fundamental trabalham no laboratório de informática — escrevendo, registrando dados, organizando os achados das experiências. Depois, trocam.
No laboratório, a primeira aula começa com o que o professor chama, sem cerimônia, de “picar mato”. As plantas coletadas — capim-limão, lavanda, citronela, alecrim — são cortadas em pedaços menores para aumentar a superfície de contato e potencializar a extração do óleo durante a destilação. “Você pica, aumenta a superfície de contato, coloca no destilador. Primeira aula, picar mato”, resume Carlos.
A segunda e a terceira aulas são dedicadas à formulação. Os alunos trabalham com receitas buscadas em livros de farmacotécnica e de manipulação farmacêutica, ajustando proporções, testando texturas, avaliando resultados. Para produtos como bálsamos e sabonetes, medem espalhabilidade, textura e aroma em gráficos de radar — uma ferramenta de análise sensorial adaptada por Carlos para o contexto escolar. No final de cada aula, há perguntas questionadoras: o que foi feito, por quê deu certo, por quê não deu.

Sobre os erros, o professor não tem papas na língua: “Dá errado muita coisa. Dá muita fórmula errada. Mas isso que é o legal, porque você está fazendo ciência”. O alecrim, por exemplo, foi aposentado definitivamente do cardápio de destilações depois que o hidrolato exalou um odor tão intenso que tomou conta de toda a escola. “Alecrim é uma coisa que a gente não destila mais. Fedeu a escola inteira, olha. É um negócio absurdo, ruim.” Há também o episódio do destilador de vidro que estourou durante uma aula — um fenômeno chamado bumping, bolhas bruscas formadas durante a fervura que sacudiram o equipamento com força suficiente para derrubá-lo. Ninguém se machucou, mas o susto foi pedagógico à sua maneira.
Trabalhar com chama, soda cáustica e vidro frágil ao redor de adolescentes exige atenção permanente. Carlos não esconde o cansaço: “A vontade é só de abrir uma cerveja, sabe? Porque meu negócio não é bolinho, não.” Mas completa, quase imediatamente: “É bom, eu gosto. Porque você está trabalhando ciência, você está fazendo isso pensar.”
O interior como laboratório vivo
Isabelle Chelsky tem exatamente a trajetória que Carlos imaginava quando criou o clube. Aluna do colégio, soube do projeto quando seu professor de Química comentou, em sala, que estavam aguardando a resposta para abrir o clube na escola. A curiosidade foi imediata. “Eu sempre gostei muito de Química e achei que seria uma experiência diferente e ia agregar muito para mim.”
Antes do clube, Isabelle tinha uma imagem de ciência moldada pelas telas: jalecos brancos imaculados, tubinhos coloridos, laboratórios assépticos. O projeto transformou essa visão. “Me mostrou que a ciência está presente no nosso dia a dia. Como temos que fazer os testes e a gente sempre está sujeito a errar para poder entender como funciona a natureza”, conta Isabelle.

O que mais a surpreendeu foi perceber que o interior já era, ele mesmo, um espaço de conhecimento. “O interior é um laboratório vivo. Enquanto na cidade a ciência geralmente é mais teórica, aqui nós mesmos coletamos as plantas para nossa produção”, explica a estudante. Mais do que isso: a comunidade já carregava um saber acumulado sobre as plantas locais. Muitas famílias fazem o próprio sabão em casa há décadas. O clube não ignorou esse conhecimento — foi construído sobre ele. “No projeto, a gente só pega esse saber popular e adiciona um método científico. A gente cria algo com mais qualidade, com um pH mais controlado e aromas naturais”, completa.
A parte mais desafiadora, conta Isabelle, é a das fórmulas. Não existe receita definitiva. Existe teste, ajuste, refação. “São muitos os testes que a gente faz para não ficar muito oleoso, para não ficar muito ácido. Sempre tem que estar numa quantidade exata para o uso.” É frustrante, às vezes. E é exatamente isso que ela considera mais formativo.
O clube também aproximou Isabelle da universidade de uma forma que ela não esperava. A recente visita ao Câmpus Cedeteg, da Unicentro, em Guarapuava, foi, para muitos alunos, o primeiro contato real com um laboratório acadêmico. “A gente pôde ver de pertinho como realmente é estar aí”, conta. Para ela, ver que existe um caminho concreto entre a roça de Prudentópolis e os corredores de uma universidade mudou algo. “Projetos assim abrem portas, porque mostram que as universidades também são nosso lugar e como a gente pode usar a ciência para melhorar a nossa qualidade de vida aqui da nossa própria comunidade.”

Sementes de futuro
O professor Carlos pensa no clube também como uma provocação de longo prazo. Prudentópolis tem cachoeiras, tem paisagem, tem plantas aromáticas em abundância. Ele imagina, em voz alta, a possibilidade de um cooperativismo local em torno dos óleos essenciais — produção artesanal de qualidade, turismo ecológico, renda que não dependa de entrar em um forno de carvão. “A gente vai semeando em sala de aula. Uma hora, talvez, surja uma ideia, alguma coisa para eles desenvolverem.”
Christo sabe que isso não depende só da escola. Depende de política pública, de interesse da prefeitura, de incentivo externo. Mas também sabe que o conhecimento que os alunos estão construindo, sobre plantas, sobre formulação, sobre método científico, sobre como ler um rótulo e questionar uma notícia falsa — já é real. Já existe. Já mudou alguma coisa.
Na Mostra Científica do Paraná Faz Ciência, em 2025, na Unicentro, foram apresentados os projetos de destilação a vapor, hidrodestilação, batom, velas aromáticas e loção repelente com citronela. As velas fizeram mais sucesso: “é a coisa mais simples do mundo, mas pega todo mundo. É cheirosinho e tal.” Os sabonetes também atraíram público. O bálsamo natural de cera de abelha, óleo de coco e óleos essenciais — desenvolvido este ano — vai ser o próximo a ganhar as bancadas de apresentação.

Quando os alunos do Ensino Médio de Carlos começam a reconhecer, nas aulas de Química, os processos que já vivenciaram no laboratório do clube — a separação de misturas, o funil de decantação, a fase aquosa e a fase oleosa —, algo se encaixa. A teoria encontra cheiro, textura e temperatura. “Eles falam: ah, professor, a gente fez isso! E aí eles começam a linkar.”
É isso que o professor chama de ciência. Não a do jaleco branco e dos tubinhos coloridos. A do mato picado, do destilador de inox, da fórmula que deu errado três vezes antes de dar certo. A que nasce de quem já sabia, antes de qualquer aula, que existe uma hora certa para colher.
EQUIPE DESTA PÁGINA
Texto: Thiago de Oliveira, com apuração de Matias Trindade
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Carlisle Ferrari
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

Gostou do nosso conteúdo? Nos siga nas nossas redes sociais: Instagram, Facebook e YouTube.











