Imagine o Paraná dos anos 50: muitas áreas rurais ainda sem energia elétrica e uma vida que seguia o ritmo lento do campo. De repente, o cenário muda! Não só o Paraná, mas o Brasil todo, sentiu mudanças rápidas pela urbanização, que geraram novos hábitos de vida e consumo.
O ronco dos tratores da “Revolução Verde”, época de transformação tecnológica na agricultura global focada em aumentar drasticamente a produtividade, anunciava a modernização e, junto com os agrotóxicos e o maquinário, um elemento-chave começou a chegar à mesa dos paranaenses com força total: a carne. E não qualquer carne, mas aquela embalada por uma narrativa de influência que pode nunca ter passado pela nossa mente.

Essa é a base da dissertação de mestrado de Elisane Ramires Pires, defendida no Programa de Pós Graduação Mestrado em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no campus de Laranjeiras do Sul, no Paraná. O estudo é um mergulho na história do consumo de carne no estado durante as décadas de 60 e 70, um período de urbanização acelerada e mudanças drásticas nos hábitos de vida dos paranaenses.
O projeto nasceu de um “match” acadêmico. De um lado, Elisane trouxe uma bagagem da graduação na Universidade Federal da Integração Latina Americana (Unila) em Bacharel Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar, somada ao seu interesse por gastronomia. Do outro, a expertise do historiador e professor Miguel Carvalho, que tem como um dos interesses de pesquisa a história dos animais e do vegetarianismo, o que resultou até mesmo em um livro.
O time ficou ainda mais completo quando a professora e economista Janete Stoffel também assumiu a orientação, trazendo o olhar preciso da economia agrícola para fechar essa parceria interdisciplinar.
Para entender como o paranaense passou a incorporar cada vez mais a carne de cada dia à mesa, Elisane mergulhou nas páginas do antigo Diário do Paraná – que deixou de ser publicado em 1983. Foram analisadas mais de 300 reportagens e ela descobriu que o consumo de carne no estado, nessa época, foi influenciado por alguns fatores bem específicos.
A Revolução Verde foi um deles que, naturalmente, ditou o aumento no consumo de carne no Paraná. A produção pecuária se modernizou e a carne verde, antes considerada “fresca”, deu lugar à carne congelada, que era produzida em grandes escalas e durava dias nos congeladores domésticos, permitindo, também, que os supermercados estocassem o produto por mais tempo e ampliassem as vendas.
Mas é no lado menos óbvio dessa história que entra a mídia. Elisane identificou, na sua pesquisa pelas publicações do Diário, por meio de reportagens que hoje chamaríamos de “publieditoriais”, empresas patrocinavam conteúdos para convencer o consumidor, de forma sutil, a incluir a carne cada vez mais no prato.
A pesquisa também revelou que homens e mulheres abordavam o consumo de carne de forma bem diferente. “Enquanto os homens viam esse consumo como uma questão de status e não pensavam duas vezes antes de comprar carne para ostentar o poder aquisitivo, as mulheres, quando inseridas no mercado de trabalho, preferiam gastar com frutas, verduras, legumes e cuidados da casa, deixando a carne em segundo plano. Elas só iam ao açougue quando as necessidades da família e da casa já estivessem garantidas”, conta a pesquisadora.
Curiosamente, a pesquisa de Elisane revelou que o mesmo jornal que incentivava o consumo também abria brechas para movimentos alternativos. Enquanto a modernização agropecuária barateava o custo da carne, surgiam as primeiras vozes falando sobre vegetarianismo e os aspectos nutricionais de uma dieta rica sem carne.
Seja por preocupação com a saúde (diante das doenças que o consumo excessivo poderia trazer), pelo bem-estar animal ou por questões ambientais, já dava para ver que o consumo crescente e desenfreado de carne teria contestação.

O resultado desse trabalho na UFFS vai muito além da dissertação de Elisane. A pesquisa, segundo a professora Janete, é um convite para que a gente deixe de ser “consumidor passivo” diante do que a mídia nos apresenta.
Para a própria Elisane, “a investigação foi transformadora e conseguiu até mudar a minha realidade alimentar e despertar uma autonomia crítica que agora compartilho por meio da minha dissertação”.
No fim das contas, entender como começamos a comer em larga escala o que comemos hoje é o primeiro passo para decidirmos, com liberdade, o que queremos no nosso prato amanhã e como queremos que esses ingredientes cheguem até nós.
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Texto: Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Leonardo Rosa
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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