O que a mídia tem a ver com o consumo de carne?

Ilustração em estilo colagem mostra uma pessoa sentada em um banco, com pernas cruzadas, lendo um jornal com o título “DIÁRIO DO PARANÁ”, que cobre seu rosto. A pessoa veste camiseta verde, shorts roxos com listras laterais e tênis pretos. Ao fundo, há uma árvore estilizada e formas geométricas. À direita, aparece a fachada de um açougue com a palavra “AÇOUGUE” em destaque e um balcão com pedaços de carne expostos. Silhuetas humanas desfocadas estão próximas ao estabelecimento, criando sensação de movimento. A cena tem textura granulada e tons suaves.
Pesquisa da UFFS analisou mais de 300 reportagens para entender o consumo de carne no Paraná nas décadas de 60 e 70

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Imagine o Paraná dos anos 50: muitas áreas rurais ainda sem energia elétrica e uma vida que seguia o ritmo lento do campo. De repente, o cenário muda! Não só o Paraná, mas o Brasil todo, sentiu mudanças rápidas pela urbanização, que geraram novos hábitos de vida e consumo. 

O ronco dos tratores da “Revolução Verde”, época de transformação tecnológica na agricultura global focada em aumentar drasticamente a produtividade, anunciava a modernização e, junto com os agrotóxicos e o maquinário, um elemento-chave começou a chegar à mesa dos paranaenses com força total: a carne. E não qualquer carne, mas aquela embalada por uma narrativa de influência que pode nunca ter passado pela nossa mente.

Infográfico com fundo em tom bege e textura granulada apresenta o título “O QUE FOI A REVOLUÇÃO VERDE?” em destaque no topo. À esquerda, blocos de texto explicam: “ORIGEM”, indicando que surgiu após a Segunda Guerra Mundial diante da fome em regiões como África Subsaariana e sul da Ásia; “OBJETIVO”, sobre aumentar a produção de alimentos com mais tecnologia; “NOVAS SEMENTES”, descrevendo plantas geneticamente modificadas, mais produtivas e resistentes; “TECNOLOGIA NO CAMPO”, sobre métodos modernos de gestão e técnicas industriais; e “MELHOR USO DA TERRA”, mencionando pesquisas para superar limitações do solo e melhorar máquinas agrícolas. À direita, há a ilustração de um trator verde pulverizando uma área de plantio.

Essa é a base da dissertação de mestrado de Elisane Ramires Pires, defendida no Programa de Pós Graduação Mestrado em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no campus de Laranjeiras do Sul, no Paraná. O estudo é um mergulho na história do consumo de carne no estado durante as décadas de 60 e 70, um período de urbanização acelerada e mudanças drásticas nos hábitos de vida dos paranaenses. 

O projeto nasceu de um “match” acadêmico. De um lado, Elisane trouxe uma bagagem da graduação na Universidade Federal da Integração Latina Americana (Unila) em  Bacharel Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar, somada ao seu interesse por gastronomia. Do outro, a expertise do historiador e professor Miguel Carvalho, que tem como um dos interesses de pesquisa a história dos animais e do vegetarianismo, o que resultou até mesmo em um livro

O time ficou ainda mais completo quando a professora e economista Janete Stoffel também assumiu a orientação, trazendo o olhar preciso da economia agrícola para fechar essa parceria interdisciplinar.

  • Elisane, mulher tira uma selfie ao ar livre, sorrindo enquanto segura alguns papéis ou um caderno. Ela tem cabelos escuros e usa um lenço roxo estampado no pescoço. Ao fundo há folhagem verde, indicando que a foto foi tirada em um ambiente externo com vegetação.
  • Miguel aparece em uma selfie dentro de uma sala com estantes cheias de livros ao fundo. Ele tem cabelos escuros, barba e bigode, e sorri para a câmera. Está usando uma camiseta vermelha sob um casaco marrom claro, com o braço estendido segurando o celular para tirar a foto.
  • Janete, de pele clara, aparece em um retrato próximo, sorrindo para a câmera. Ela tem cabelos escuros e ondulados na altura dos ombros, usa óculos de armação preta e brincos dourados. Está vestindo uma blusa preta sem mangas. Ao fundo há uma porta de madeira e uma cortina, sugerindo um ambiente interno.

Para entender como o paranaense passou a incorporar cada vez mais a carne de cada dia à mesa, Elisane mergulhou nas páginas do antigo Diário do Paraná – que deixou de ser publicado em 1983. Foram analisadas mais de 300 reportagens e ela descobriu que o consumo de carne no estado, nessa época, foi influenciado por alguns fatores bem específicos.

  • Recortes de jornal antigo em preto e branco com textos sobre o mercado de carne. As manchetes destacam aumento no preço da carne e queda no consumo, mencionando impactos nas vendas e no comportamento dos consumidores. O conteúdo apresenta colunas de texto com informações sobre preços, tendências do mercado e estratégias de comerciantes para aumentar o consumo em determinados períodos do ano.
  • Recortes de jornal antigo em preto e branco com textos sobre o mercado de carne. As manchetes destacam aumento no preço da carne e queda no consumo, mencionando impactos nas vendas e no comportamento dos consumidores. O conteúdo apresenta colunas de texto com informações sobre preços, tendências do mercado e estratégias de comerciantes para aumentar o consumo em determinados períodos do ano.
  • Recortes de jornal antigo em preto e branco com textos sobre o mercado de carne. As manchetes destacam aumento no preço da carne e queda no consumo, mencionando impactos nas vendas e no comportamento dos consumidores. O conteúdo apresenta colunas de texto com informações sobre preços, tendências do mercado e estratégias de comerciantes para aumentar o consumo em determinados períodos do ano.

A Revolução Verde foi um deles que, naturalmente, ditou o aumento no consumo de carne no Paraná. A produção pecuária se modernizou e a carne verde, antes considerada “fresca”, deu lugar à carne congelada, que era produzida em grandes escalas e durava dias nos congeladores domésticos, permitindo, também, que os supermercados estocassem o produto por mais tempo e ampliassem as vendas. 

Mas é no lado menos óbvio dessa história que entra a mídia. Elisane identificou, na sua pesquisa pelas publicações do Diário, por meio de reportagens que hoje chamaríamos de “publieditoriais”, empresas patrocinavam conteúdos para convencer o consumidor, de forma sutil, a incluir a carne cada vez mais no prato.

A pesquisa também revelou que homens e mulheres abordavam o consumo de carne de forma bem diferente. “Enquanto os homens viam esse consumo como uma questão de status e não pensavam duas vezes antes de comprar carne para ostentar o poder aquisitivo, as mulheres, quando inseridas no mercado de trabalho, preferiam gastar com frutas, verduras, legumes e cuidados da casa, deixando a carne em segundo plano. Elas só iam ao açougue quando as necessidades da família e da casa já estivessem garantidas”, conta a pesquisadora. 

Curiosamente, a pesquisa de Elisane revelou que o mesmo jornal que incentivava o consumo também abria brechas para movimentos alternativos. Enquanto a modernização agropecuária barateava o custo da carne, surgiam as primeiras vozes falando sobre vegetarianismo e os aspectos nutricionais de uma dieta rica sem carne. 

Seja por preocupação com a saúde (diante das doenças que o consumo excessivo poderia trazer), pelo bem-estar animal ou por questões ambientais, já dava para ver que o consumo crescente e desenfreado de carne teria contestação.

Cena em preto e branco de uma área com alimentos. Em primeiro plano, uma mulher está curvada mexendo em um monte de hortaliças e restos de verduras espalhados pelo chão. Ao redor dela há caixas empilhadas com alimentos e alguns homens em pé observando ou trabalhando. O ambiente parece simples e movimentado, com grande quantidade de vegetais e caixas ao redor.
O crescente consumo de hortaliças pela população (Foto/Reprodução)

O resultado desse trabalho na UFFS vai muito além da dissertação de Elisane. A pesquisa, segundo a professora Janete, é um convite para que a gente deixe de ser “consumidor passivo” diante do que a mídia nos apresenta.

Para a própria Elisane, “a investigação foi transformadora e conseguiu até mudar a minha realidade alimentar e despertar uma autonomia crítica que agora compartilho por meio da minha dissertação”. 

No fim das contas, entender como começamos a comer em larga escala o que comemos hoje é o primeiro passo para decidirmos, com liberdade, o que queremos no nosso prato amanhã e como queremos que esses ingredientes cheguem até nós.

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Texto:
Luiza da Costa
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Arte: Leonardo Rosa
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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