Quando a chuva passa, a injustiça climática permanece

lustração em fundo azul-esverdeado mostra um braço e uma mão de pele marrom emergindo da água e segurando uma balança dourada. A balança tem dois pratos suspensos por fios, representando equilíbrio e justiça. Sobre a mão há uma flor roxa e, ao redor do braço, um colar de contas coloridas. Folhas e flores aparecem próximas à composição, enquanto ondas circulares se formam na água ao redor do braço. A imagem combina elementos da natureza e símbolos de justiça e equilíbrio.
Pesquisa sobre o CBJC mostra como a comunicação popular dá voz aos grupos mais afetados pelas mudanças do clima, em prol da justiça climática

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Há quatro anos, uma chuva em Maringá me ensinou que uma tempestade pode ser muito maior do que aquilo que acontece enquanto ela cai. Eu me lembro de acompanhar a chuva de dentro de casa, sem imaginar que, quando ela finalmente passasse, a cidade que eu conhecia estaria parcialmente paralisada.

Fiquei dois dias sem energia elétrica e sem água. A internet só voltou uma semana depois. Durante semanas, ainda havia árvores espalhadas pelas ruas e postes derrubados pela força do temporal. Vias importantes ficaram interditadas, semáforos pararam de funcionar e se locomover pela cidade virou uma missão.

Empresários perderam estoques inteiros. Famílias viram a compra do mês estragar dentro da geladeira por falta de energia. O abastecimento de água demorou dias para ser normalizado. A cidade foi lentamente colocando cada coisa em seu lugar. 

  • A fotografia retrata uma cena urbana externa sob um céu diurno totalmente encoberto por nuvens cinzentas. Em primeiro plano e ocupando o centro do enquadramento, uma árvore de grande porte teve seus galhos principais quebrados e caiu atravessada sobre a pista de asfalto de uma rua, bloqueando quase completamente a circulação de veículos. A folhagem verde e densa da árvore cobre grande parte da pista, acompanhada de pequenos galhos e folhas espalhados pelo chão molhado. Na margem esquerda da via, há carros estacionados junto ao meio-fio, incluindo um veículo de cor prata; próximo a ele, um homem usando jaqueta escura e calça comprida está de pé na calçada observando os estragos. Ao fundo, no lado esquerdo, avistam-se fachadas de estabelecimentos comerciais com placas sinalizadoras de cores vermelha e azul. Na parte superior, os galhos superiores da árvore caída estão entrelaçados na fiação elétrica aérea. Do lado direito da imagem, na pista oposta, um motociclista trajando capacete e roupas escuras trafega em uma moto, enquanto outros carros transitam mais ao fundo.
  • A imagem traz um plano aproximado do tronco de uma árvore de grande porte arrancada e tombada em uma calçada urbana. No centro do enquadramento, o tronco espesso de casca escura, textura rugosa e raízes expostas está partido junto à base e tomba inclinando-se para o lado direito. Do meio do tronco partido brota um tufo volumoso de folhas verdes e largas que pendem para baixo em direção ao solo. A árvore fica posicionada em uma estreita faixa gramada situada entre o meio-fio de concreto da rua asfaltada (à esquerda) e um passeio para pedestres pavimentado com blocos intertravados nas cores vermelha e cinza. No canto superior direito, ao fundo, observa-se a fachada lisa de um prédio moderno pintado de branco, protegida por um gradil metálico cinza instalado sobre uma mureta de concreto. O asfalto e a calçada aparentam estar úmidos e o céu ao fundo está cinzento e nublado.

Eu nunca tinha visto uma chuva como aquela. Até dois anos depois, quando um Estado inteiro enfrentou, por dias, o temporal que Maringá havia enfrentado em uma madrugada. 

Entre o fim de abril e o início de maio de 2024, o Rio Grande do Sul (RS) foi atingido por uma das maiores tragédias climáticas de sua história. Em apenas duas semanas, choveu o equivalente a até 40% do volume esperado para todo o ano. Mais de 180 pessoas morreram, centenas ficaram feridas e mais de 600 mil precisaram deixar suas casas. Milhares perderam não apenas paredes, móveis ou carros, mas aquilo que havia sido construído ao longo de uma vida inteira.

Entre essas pessoas estavam parentes de um amigo meu. Eles perderam a casa, as roupas, os carros, os brinquedos dos filhos, os objetos domésticos. Depois da enchente, vieram para Maringá para tentar começar de novo.

O desastre no RS não aconteceu por uma única razão. Um episódio muito forte de El Niño, que é um fenômeno normal da natureza, contribuiu para as chuvas extremas. O problema é que esse acontecimento natural vem sendo potencializado há anos pelas ações humanas, as quais estão aumentando a temperatura terrestre e gerando respostas muito mais intensas do que deveriam ser. É como colocar mais fogo em uma fogueira. 

E, em 2026, a sensação de que estamos diante de algo que não terminou voltou a aparecer nas notícias. Um novo episódio de Super El Niño coloca novamente a América Latina diante da possibilidade de secas, ondas de calor e chuvas ainda mais potentes em diferentes regiões.

O aquecimento global, mais uma vez, é o combustível que adjetiva como “Super” um evento que era pra ser apenas natural. Mais um reflexo da crise climática em que o próprio homem se colocou. 

Podemos viver novos episódios do evento em Maringá ou no Rio Grande do Sul. E essa crise ainda tem o agravante de não distribuir os seus impactos de maneira igual. O Observatório das Metrópoles de Porto Alegre e o Instituto de Referência Negra Peregum desenvolveram mapas que escancararam a injustiça climática: na região metropolitana da capital gaúcha as áreas mais afetadas pelas enchentes coincidiam com territórios mais pobres e com maior concentração de população negra.

É nesse ponto que a crise climática deixa de ser apenas uma questão sobre temperatura, chuva, oceanos ou fenômenos atmosféricos e passa a ser também uma questão de desigualdade.

É isso que a ideia de justiça climática procura colocar no centro da discussão: se os efeitos de um planeta em aquecimento atingem pessoas de maneiras diferentes, falar sobre clima também significa falar sobre sociedade, território, renda, raça e acesso a direitos.

Além disso, há, igualmente, uma urgência comunicacional. Isto chamou a atenção da pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Alice Loureiro do Nascimento. Ela entende que há uma narrativa dominante da grande mídia capaz de silenciar e marginalizar os sujeitos mais afetados pela emergência climática.

A imagem mostra uma jovem adulta em um retrato feito em ambiente interno, enquadrada da cintura para cima. Ela tem cabelos lisos em tom castanho-claro, com uma franja sobre a testa e algumas mechas soltas nas laterais do rosto. Usa óculos de armação preta, de formato arredondado, e olha diretamente para a câmera com um leve sorriso. Está vestindo uma camiseta branca e, por cima, uma jaqueta preta de tecido, aberta na frente. Ao fundo, há cortinas claras, predominantemente brancas e bege, que ocupam todo o cenário e deixam a fotografia com aparência iluminada e neutra.
Mestranda Alice Loureiro do Nascimento (Foto/Arquivo pessoal)

A pesquisadora destaca, então, a importância da comunicação popular e comunitária, que oferece espaço e amplifica as vozes dos movimentos sociais, das comunidades tradicionais, das Organizações Não-Governamentais (ONGs) e das periferias urbanas, sendo ferramenta de resistência, formação crítica e mobilização coletiva.

Para isso, é fundamental que seja uma comunicação feita pelo povo e para o povo, sem fins lucrativos, com aspectos educativos e com o objetivo de suscitar uma reflexão, além de surgir por meio de movimentos sociais, onde o povo discute e explicita seus interesses comuns.

De acordo com a mestranda, pesquisas indicam – assim como aquelas feitas sobre Porto Alegre – que populações marginalizadas, como comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e as pessoas das periferias das cidades, são mais vulneráveis aos eventos climáticos no Brasil, ou seja, era de se esperar que esses grupos tivessem mais espaço dentro das narrativas sobre o clima. Além de sofrerem os efeitos negativos da injustiça ambiental, elas também detêm saberes e experiências fundamentais para propor soluções futuras. 

Partindo desse contexto, a pesquisadora desenvolveu o estudo “Comunicação popular em tempos de emergência climática: um estudo de caso do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC)”. A ideia é oferecer um exemplo concreto desse outro modo de comunicar. Afinal, o Centro pode ser visto como uma experiência prática da comunicação popular e comunitária voltada para o enfrentamento das questões climáticas com atenção às desigualdades de raça, classe, gênero e território.

A fotografia mostra um grupo de dez pessoas reunidas em um palco ou espaço de evento, diante de um painel decorado com formas coloridas que lembram folhas. As pessoas estão sorrindo e olhando para a câmera. À esquerda, há uma mulher negra usando blazer e calça em tom azul-claro. Ao lado dela, um homem veste roupas claras. Em seguida, aparecem dois homens, um usando camisa listrada e outro com camisa clara estampada. Mais ao centro, há um homem de camisa azul-escura e, à frente dele, uma mulher negra agachada, segurando um livro ou material amarelo. No centro do grupo, uma mulher de óculos usa uma roupa clara e segura uma placa preta com a inscrição “WHO NEEDS CLIMATE JUSTICE?”. Ao lado dela, outra mulher negra usa óculos e segura um material amarelo. Mais à direita, há um homem negro com cabelo crespo volumoso, usando uma camisa estampada e calça clara, e, na extremidade direita, uma mulher negra de cabelos presos usa uma blusa branca e calça branca, segurando também um material amarelo. Na parte central inferior da imagem, algumas pessoas seguram uma faixa verde com o nome e o símbolo de “Palmares”. No fundo, também são visíveis parcialmente outras inscrições e elementos gráficos relacionados ao evento.
Mesa de lançamento do Manifesto “Corpos, Vozes e Clima: LGBTQIAPN+ pela Justiça Climática”, promovido pelo Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), na COP30 (Foto/CBJC)

No entanto, a questão da justiça climática não existe de hoje. Suas raízes datam de 1980, como um movimento popular de ativistas climáticos dos Estados Unidos da América, sendo também um braço do movimento afro-americano. Na época, o grupo lutava para que os bairros e comunidades negras deixassem de ser alvo de uma poluição desproporcional feita pelo governo, muito diferente do tratamento oferecido às comunidades brancas dentro de grandes centros urbanos 

“Com o avanço das discussões sobre as mudanças climáticas, ficou claro que os efeitos do aquecimento global e catástrofes ‘naturais’ seguiriam a mesma lógica de injustiça para comunidades periféricas, em contextos geopolíticos tanto locais quanto globais. Ou seja, ficou evidente que a condição climática de um povo, comunidade ou população seria mais um reflexo da injustiça presente no sistema econômico e social vigente, nos quais marcadores de classe, território, raça e gênero são determinantes para a qualidade de vida de um indivíduo”, declara Alice.

Assim, destacando a importância, o impacto e a popularização atual dos meios digitais, foram analisadas as postagens feitas pelo CBJC, em sua conta na rede social Instagram, em busca de analisar um exemplo de comunicação popular e comunitária. Foram selecionados 58 posts, sendo 31 carrosséis – mais de uma foto por postagem – 14 vídeos curtos e 12 imagens únicas, com todos postados durante o ano de 2024 – a primeira em abril e a última em dezembro de 2024. 

  • Trata-se de um card informativo montado sobre uma fotografia de desastre socioambiental urbano. Ao fundo, a foto mostra o cenário após um deslizamento de terra em uma comunidade no sopé de um morro coberto por densa vegetação verde, onde se observa uma grande mancha de terra marrom provocada pela encosta que cedeu. Em primeiro plano, sobre o solo coberto de lama e escombros, uma escavadeira mecânica de cor laranja trabalha próxima a casas de alvenaria com paredes brancas, rosa e tijolos expostos. No canto superior direito da imagem, consta o crédito fotográfico: "FOTO TULIO SEABRA | AGÊNCIA ECONORDESTE". Sobreposta à parte inferior esquerda da foto, há uma grande caixa verde-escura em formato poligonal com o título principal em letras brancas: "Adaptação Climática", acompanhado do subtítulo em verde-limão destacado em caixa alta: "É TUDO PRA ONTEM!". No canto inferior direito do card, destaca-se a assinatura gráfica "cbjc" em tipografia branca.
  • Trata-se de um card informativo em estilo de apresentação com fundo bege-claro e detalhes em verde. No topo centralizado, encontra-se o título "Adaptação Climática" escrito em letras pretas e sublinhado por uma linha fina. Logo abaixo, há uma etiqueta retangular verde-alface com a pergunta "O QUE É?" em texto itálico escuro. A imagem é dividida em duas colunas de texto. Na coluna da esquerda, lê-se o texto explicativo: "A Política Nacional sobre Mudança do Clima define adaptação como: 'iniciativas e medidas para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e humanos frente aos efeitos atuais e esperados da mudança do clima'. Na prática, a Adaptação Climática protege as pessoas de:". Na coluna da direita, há uma lista vertical de cinco itens, cada um grifado por uma linha horizontal verde-limão: "Temperaturas mais elevadas", "Elevação do nível do mar", "Tempestades mais violentas", "Chuvas imprevisíveis" e "Oceanos mais ácidos". No canto inferior direito, há um botão circular verde-limão com o ícone de uma seta preta apontando para a direita.

“Mais do que um retrato institucional, estabelecemos um estudo de caso da comunicação como possível prática política contra-hegemônica em tempos de colapso climático. A intenção era mais do que ‘avaliar’ as capacidades do fazer comunicacional da instituição, mas, sim, traçar um panorama de como poderia ser uma comunicação popular sobre o clima na era digital, levando em consideração as desigualdades estruturais que são centrais no entendimento dessa crise”, explica Alice. 

A pesquisadora realizou uma sistematização dos conteúdos, delimitando as formas que a comunicação popular e comunitária pode assumir diante da crise climática, especialmente no contexto digital. Para compreender a intenção comunicacional, os posts foram divididos em quatro grupos: informacional, institucional, divulgação e registro.

A primeira categoria possui o objetivo principal de informar e conscientizar sobre algum tema relacionado à justiça climática, enquanto a segunda é voltada à apresentação da própria organização, seus membros ou parcerias, em uma busca de fortalecimento da instituição e seus colaboradores. 

Já a classe de divulgação busca propagar os eventos ou materiais produzidos pela instituição, para atrair maiores públicos nesses momentos. Por fim, o registro contabiliza os posts que contêm fotos ou vídeos de eventos organizados por ou com a participação do CBJC e seus membros.

A imagem apresenta um gráfico sobre os temas das postagens do Centro Brasileiro de Justiça Climática. Em fundo azul-esverdeado, há uma folha de papel branco com um gráfico de pizza dividido em quatro categorias: Informacional, com 30%; Divulgação, com 26%; Institucional, com 24%; e Registro, com 20%. As partes são representadas por cores distintas: vermelho, bege, roxo e azul-esverdeado. O título aparece em destaque na parte superior.

Além disso, a partir dos entendimentos sobre comunicação popular e comunitária, foram analisadas características essenciais específicas dentro da comunicação virtual da instituição. Cada postagem poderia carregar mais de uma característica, reforçando seu aspecto comunicacional. 

A imagem apresenta um gráfico sobre as características da comunicação popular e comunitária e sua presença nas postagens do CBJC. Em fundo azul-esverdeado, há uma folha de papel branco com sete indicadores e respectivos percentuais: protagonismo popular (80%), caráter educativo/popular (65%), estímulo à reflexão (55%), vínculo em movimentos sociais (70%), discussões de interesses coletivos (77%), sem fins lucrativos (100%) e convocação à ação coletiva (25%). Barras coloridas representam visualmente os resultados.

“Foi possível observar, na prática, o reflexo da práxis comunicacional adotada pela organização e sua coerência com a proposta contra-hegemônica e democrática que marca esse campo. Por meio da análise, foi constatada a presença constante de ativistas e pesquisadoras negras como protagonistas e criadoras dos conteúdos, além de parcerias com outros movimentos ou participantes de movimentos sociais, como quilombolas, o movimento negro e instituições de defesa da causa indígena”, expõe a mestranda. 

A pesquisa evidencia que a crise climática é muito maior do que seus eventos extremos. Os temporais que arrastam destruição não atingem todos da mesma forma, mesmo que os noticiários façam parecer que sim. A atuação do CBJC, assim como qualquer instituição que ofereça uma comunicação popular e comunitária, busca expor essas realidades e ofertar espaços para narrativas marginalizadas. Tudo isso expõe que comunicar a crise climática também pode ser uma forma de enfrentá-la, dando protagonismo a quem é esquecido e aproximando o debate climático das comunidades que estão na linha de frente dessa emergência.

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Texto:
Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Nathália Montalvão
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento

A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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