Há quatro anos, uma chuva em Maringá me ensinou que uma tempestade pode ser muito maior do que aquilo que acontece enquanto ela cai. Eu me lembro de acompanhar a chuva de dentro de casa, sem imaginar que, quando ela finalmente passasse, a cidade que eu conhecia estaria parcialmente paralisada.
Fiquei dois dias sem energia elétrica e sem água. A internet só voltou uma semana depois. Durante semanas, ainda havia árvores espalhadas pelas ruas e postes derrubados pela força do temporal. Vias importantes ficaram interditadas, semáforos pararam de funcionar e se locomover pela cidade virou uma missão.
Empresários perderam estoques inteiros. Famílias viram a compra do mês estragar dentro da geladeira por falta de energia. O abastecimento de água demorou dias para ser normalizado. A cidade foi lentamente colocando cada coisa em seu lugar.
Eu nunca tinha visto uma chuva como aquela. Até dois anos depois, quando um Estado inteiro enfrentou, por dias, o temporal que Maringá havia enfrentado em uma madrugada.
Entre o fim de abril e o início de maio de 2024, o Rio Grande do Sul (RS) foi atingido por uma das maiores tragédias climáticas de sua história. Em apenas duas semanas, choveu o equivalente a até 40% do volume esperado para todo o ano. Mais de 180 pessoas morreram, centenas ficaram feridas e mais de 600 mil precisaram deixar suas casas. Milhares perderam não apenas paredes, móveis ou carros, mas aquilo que havia sido construído ao longo de uma vida inteira.
Entre essas pessoas estavam parentes de um amigo meu. Eles perderam a casa, as roupas, os carros, os brinquedos dos filhos, os objetos domésticos. Depois da enchente, vieram para Maringá para tentar começar de novo.
O desastre no RS não aconteceu por uma única razão. Um episódio muito forte de El Niño, que é um fenômeno normal da natureza, contribuiu para as chuvas extremas. O problema é que esse acontecimento natural vem sendo potencializado há anos pelas ações humanas, as quais estão aumentando a temperatura terrestre e gerando respostas muito mais intensas do que deveriam ser. É como colocar mais fogo em uma fogueira.
E, em 2026, a sensação de que estamos diante de algo que não terminou voltou a aparecer nas notícias. Um novo episódio de Super El Niño coloca novamente a América Latina diante da possibilidade de secas, ondas de calor e chuvas ainda mais potentes em diferentes regiões.
O aquecimento global, mais uma vez, é o combustível que adjetiva como “Super” um evento que era pra ser apenas natural. Mais um reflexo da crise climática em que o próprio homem se colocou.
Podemos viver novos episódios do evento em Maringá ou no Rio Grande do Sul. E essa crise ainda tem o agravante de não distribuir os seus impactos de maneira igual. O Observatório das Metrópoles de Porto Alegre e o Instituto de Referência Negra Peregum desenvolveram mapas que escancararam a injustiça climática: na região metropolitana da capital gaúcha as áreas mais afetadas pelas enchentes coincidiam com territórios mais pobres e com maior concentração de população negra.
É nesse ponto que a crise climática deixa de ser apenas uma questão sobre temperatura, chuva, oceanos ou fenômenos atmosféricos e passa a ser também uma questão de desigualdade.
É isso que a ideia de justiça climática procura colocar no centro da discussão: se os efeitos de um planeta em aquecimento atingem pessoas de maneiras diferentes, falar sobre clima também significa falar sobre sociedade, território, renda, raça e acesso a direitos.
Além disso, há, igualmente, uma urgência comunicacional. Isto chamou a atenção da pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Alice Loureiro do Nascimento. Ela entende que há uma narrativa dominante da grande mídia capaz de silenciar e marginalizar os sujeitos mais afetados pela emergência climática.

A pesquisadora destaca, então, a importância da comunicação popular e comunitária, que oferece espaço e amplifica as vozes dos movimentos sociais, das comunidades tradicionais, das Organizações Não-Governamentais (ONGs) e das periferias urbanas, sendo ferramenta de resistência, formação crítica e mobilização coletiva.
Para isso, é fundamental que seja uma comunicação feita pelo povo e para o povo, sem fins lucrativos, com aspectos educativos e com o objetivo de suscitar uma reflexão, além de surgir por meio de movimentos sociais, onde o povo discute e explicita seus interesses comuns.
De acordo com a mestranda, pesquisas indicam – assim como aquelas feitas sobre Porto Alegre – que populações marginalizadas, como comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e as pessoas das periferias das cidades, são mais vulneráveis aos eventos climáticos no Brasil, ou seja, era de se esperar que esses grupos tivessem mais espaço dentro das narrativas sobre o clima. Além de sofrerem os efeitos negativos da injustiça ambiental, elas também detêm saberes e experiências fundamentais para propor soluções futuras.
Partindo desse contexto, a pesquisadora desenvolveu o estudo “Comunicação popular em tempos de emergência climática: um estudo de caso do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC)”. A ideia é oferecer um exemplo concreto desse outro modo de comunicar. Afinal, o Centro pode ser visto como uma experiência prática da comunicação popular e comunitária voltada para o enfrentamento das questões climáticas com atenção às desigualdades de raça, classe, gênero e território.

No entanto, a questão da justiça climática não existe de hoje. Suas raízes datam de 1980, como um movimento popular de ativistas climáticos dos Estados Unidos da América, sendo também um braço do movimento afro-americano. Na época, o grupo lutava para que os bairros e comunidades negras deixassem de ser alvo de uma poluição desproporcional feita pelo governo, muito diferente do tratamento oferecido às comunidades brancas dentro de grandes centros urbanos
“Com o avanço das discussões sobre as mudanças climáticas, ficou claro que os efeitos do aquecimento global e catástrofes ‘naturais’ seguiriam a mesma lógica de injustiça para comunidades periféricas, em contextos geopolíticos tanto locais quanto globais. Ou seja, ficou evidente que a condição climática de um povo, comunidade ou população seria mais um reflexo da injustiça presente no sistema econômico e social vigente, nos quais marcadores de classe, território, raça e gênero são determinantes para a qualidade de vida de um indivíduo”, declara Alice.
Assim, destacando a importância, o impacto e a popularização atual dos meios digitais, foram analisadas as postagens feitas pelo CBJC, em sua conta na rede social Instagram, em busca de analisar um exemplo de comunicação popular e comunitária. Foram selecionados 58 posts, sendo 31 carrosséis – mais de uma foto por postagem – 14 vídeos curtos e 12 imagens únicas, com todos postados durante o ano de 2024 – a primeira em abril e a última em dezembro de 2024.
Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC) Exemplo de postagem do CBJC (Foto/CBJC)
“Mais do que um retrato institucional, estabelecemos um estudo de caso da comunicação como possível prática política contra-hegemônica em tempos de colapso climático. A intenção era mais do que ‘avaliar’ as capacidades do fazer comunicacional da instituição, mas, sim, traçar um panorama de como poderia ser uma comunicação popular sobre o clima na era digital, levando em consideração as desigualdades estruturais que são centrais no entendimento dessa crise”, explica Alice.
A pesquisadora realizou uma sistematização dos conteúdos, delimitando as formas que a comunicação popular e comunitária pode assumir diante da crise climática, especialmente no contexto digital. Para compreender a intenção comunicacional, os posts foram divididos em quatro grupos: informacional, institucional, divulgação e registro.
A primeira categoria possui o objetivo principal de informar e conscientizar sobre algum tema relacionado à justiça climática, enquanto a segunda é voltada à apresentação da própria organização, seus membros ou parcerias, em uma busca de fortalecimento da instituição e seus colaboradores.
Já a classe de divulgação busca propagar os eventos ou materiais produzidos pela instituição, para atrair maiores públicos nesses momentos. Por fim, o registro contabiliza os posts que contêm fotos ou vídeos de eventos organizados por ou com a participação do CBJC e seus membros.

Além disso, a partir dos entendimentos sobre comunicação popular e comunitária, foram analisadas características essenciais específicas dentro da comunicação virtual da instituição. Cada postagem poderia carregar mais de uma característica, reforçando seu aspecto comunicacional.

“Foi possível observar, na prática, o reflexo da práxis comunicacional adotada pela organização e sua coerência com a proposta contra-hegemônica e democrática que marca esse campo. Por meio da análise, foi constatada a presença constante de ativistas e pesquisadoras negras como protagonistas e criadoras dos conteúdos, além de parcerias com outros movimentos ou participantes de movimentos sociais, como quilombolas, o movimento negro e instituições de defesa da causa indígena”, expõe a mestranda.
A pesquisa evidencia que a crise climática é muito maior do que seus eventos extremos. Os temporais que arrastam destruição não atingem todos da mesma forma, mesmo que os noticiários façam parecer que sim. A atuação do CBJC, assim como qualquer instituição que ofereça uma comunicação popular e comunitária, busca expor essas realidades e ofertar espaços para narrativas marginalizadas. Tudo isso expõe que comunicar a crise climática também pode ser uma forma de enfrentá-la, dando protagonismo a quem é esquecido e aproximando o debate climático das comunidades que estão na linha de frente dessa emergência.
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Texto: Mariana Manieri Pires Cardoso
Revisão de texto: Ana Paula Machado Velho
Edição de vídeo: Maria Eduarda Tenório Calvi
Arte: Nathália Montalvão
Supervisão de arte: Hellen Vieira
Edição Digital: Guilherme Nascimento
A pesquisa que mencionamos contribui para os seguintes ODS:

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